E deus um dia entenderá por que cometi esses erros todos.
Porque era necessário, e era a única maneira de ser livre.

na hora da minha morte, amém

"Eu não estou esperando por esse homem que não é só esse mas todos e nenhum como uma sede do que nunca bebi sem forma de águas apenas na estreiteza do aquiagora eu espero por ele desde que nasci e desde sempre soube que na hora da minha morte misturando memórias e delírios e antevisões um pouco antes a última coisa que perguntarei seria um mas onde está mas onde esteve esse tempo todo (...) Então você sempre esteve aí uma vida de procuras sem te achar e silêncio para então morrer de morte morrida sem volta de vida gasta marcada de muitas cicatrizes de vida retalhada por muitos cortes mas nunca mortais a ponto de impedir este ridículo ate na hora de minha morte amém."

Caio Fernando Abreu

lúcida

Tenho tido sonhos muito vividos. Sinto o gosto, o cheiro, escuto coisas tão mais que reais que na própria realidade. Nos meus sonhos eu escrevo. O pior, nos meus sonhos eu sei escrever! Sou muito mais eu quando sonho, eu pareço viva. Sou muito mais real sonhando, tomo decisões que me são cabíveis, vivo com intensidade, sinto as coisas de uma maneira estraordinária, até as cores são mais vivas.
Tenho tido sonhos muito vividos.
Tenho vivido nos sonhos.

Lorena Borges
Então é Natal...
As pessoas nos falham quando mais precisamos...

em construção

Eu não sei o que fazer de mim; então, hoje eu quis morrer. Mas só um pouquinho. Na verdade, quero todsos os dias, mas acabo permanecendo viva. Para o meu desespero, eu existo.
E tudo à minha volta me lembra essa existência: meus sapatos, as roupas que usei ontem e agora estão dobraas em cima da cadeira, os livros organizados na estante, a lista de tudo o que não fiz [nem vou fazer] pregada na porta da geladeira. E ele, o espelho. Que fique claro, eu não sou a imagem do espelho. Ela aparece pronta a cada vez que eu me aproximo dele.
Isso está errado. Quando eu olhar no espelho, leia-se: em construção.
Eu queria me encontrar assim, no susto, virando a esquina e dando de cara comigo:
- Oi!
"Será que, à medida que você vai vivendo, andando, viajando, vai ficando cada vez mais estrangeiro? Deve haver um porto."

Caio Fernando Abreu
"Eu acho que os jovens são facilmente infelizes porque, é claro, as paixões são mais fortes e, entre as paixões, está o desespero, não é? "

Jorge Luis Borges
Tudo o que sei fazer é arrumar as malas.
Tenho medo.
E então, essa falta do que dizer é algum tipo de quietação?


Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano
Tudo irá se expandir
Crescer com as águas
Quiçá, amores nos corações
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar
Se foi com o outro
No dia em que os dois
Se casariam por amor
Ele aluou
Hoje o seu pesar
Cintila nos varais
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale
Pra evitar que o rancor suas ervas espalhe


Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano
Tudo irá se expandir
Crescer com as águas
Quiçá, amores nos corações
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar
Se foi com o outro
No dia em que os dois
Se casariam por amor
Ele aluou
Hoje o seu pesar
Cintila nos varais
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale
Pra evitar que o rancor suas ervas espalhe

rugas

Muito cedo em minha vida ficou tarde demais.
Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que às vezes nos acomete na primeira juventude, nos anos festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi apossar-se dos traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, aumentando o tamanho dos olhos, fazendo mais triste o olhar, mais definida a boca, marcando a testa com rugas profundas. Não tive medo e observei o envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria dedicado a uma leitura. Sabia também que não estava enganada, que um dia ele ficaria mais lento, tomando seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido à época de minha viagem à França, quando eu tinha dezessete anos, ficaram impressionadas quando me reviram dois anos mais tarde, com dezenove. Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.

Duras.
Sugaram-me as vontades.
E de tanto arrumar as malas
Esqueci meu ânimo em alguma delas.

Lorena Borges
My happiness is be unhappy sometimes

Mauricio

Já não sei dizer se ainda sei sentir.
O meu coração já não me pertence.
Já não quer mais me obedecer.
Parece agora estar tão cansado quanto eu.
Até pensei que era mais por não saber que ainda sou capaz de acreditar.
Me sinto tão só e dizem que a solidão até que me cai bem.
Às vezes faço planos. Às vezes quero ir para algum país distante
e voltar a ser feliz.
Já não sei dizer o que aconteceu.
Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu.
Se meu desejo então já se realizou.
O que fazer depois, pra onde é que eu vou?
Eu vi você voltar pra mim.

Legião Urbana

Together



You and me forever
We belong together
And we'll always endeavor
Throughout any type of weather

You want everything to be just like
The stories that you read but never write
You gotta learn to live and live and learn
You gotta learn to give and waste your term
Or you'll get burned

The Racounters
Hoje meu discurso é diferente: escrever me cansa.
Quanto custa uma noite?

my hot hot sex

"Não sei mais quem sou, se sou, ou o quê restou do que eu era. Sei o que nunca mais serei. Cansei de ser Lolita, hoje estou muito mais para femme fatale. Os sonhos que um dia foram construídos com açúcar tornaram-se pesadelos construídos com pimenta. Deixei de acreditar em finais felizes, típicos de contos de fadas, eles simplesmente não existem. A inocência foi levada pela ilusória sensação de amor, só restou o ódio.
A ‘‘bonequinha’’ quebrou sua redoma de vidro e foi viver sua vida. Os sons que antes se assemelhavam àqueles de caixinha-de-música, apropriados para embalar doces sonhos, hoje se transformaram em gritos e ruídos marcados pelo som pesado da guitarra. Os lugares que eram límpidos e gramados foram substituídos por sujos espaços localizados em qualquer cenário underground. Provo de um suave veneno, tento me manter cool.
A música vai chegando aos meus ouvidos através do fone de ouvido fodido do meu mp3, ela me distrai da vida. Na maioria das vezes, só tenho a música, ela está comigo em qualquer lugar, em qualquer momento, me dando orgasmos múltiplos e me mantendo viva. Music is my hot hot sex.
Fico enjoada com a palavra amor, então vomito palavras cheias de repulsão, cuspo pensamentos aleatórios sem o menor sentido. Perco-me no meio de tantos padrões que são estabelecidos. Alucinações, calafrios e suspiros. Busco por mim mesma e desisto de me encontrar. A candura daquela meiga menininha se esgotou e nunca mais voltará a existir. A doce menininha cansou, virou as costas e nunca mais regressará."

Desconhecido

idiota esperança

É preciso ferir-se um pouco. Ou muito.
É preciso sentir o próprio veneno.
É preciso sentir a dor feita por decisões precipitadas e erradas.
É preciso sentir as consequencias.
É preciso sofrer, sangrar...
É preciso ter esperança de que um dia se cure.

É preciso (?)

Sinto que é preciso fazer alguma loucura qualquer. Pegar uma carona, partir pro mundo e deixar tudo pra trás. Não pensar em solidão quando sempre fui sozinha.
É preciso cometer algumas loucuras. É preciso sair para o mundo porque ficar aqui não tem adiantado muita coisa. É preciso sair e conhecer gente nova, conhecer as pessoas erradas, porque estou cheia das pessoas certas que insistem em entrar na minha vida na minha hora errada. Estou cheia de tentar ser a pessoa certa, de seguir regras, de ser moral. É preciso conhecer as pessoas erradas.
É preciso sentir o meu próprio veneno. É preciso sentir o vento no rosto, o cheiro da manhã e qualquer coisa boa que possa vir com o sol. É preciso esquecer o que ficou para trás e ir em frente. É preciso tentar. É preciso chorar.
É preciso estar em paz, era só o que eu queria. Aceitar a minha solidão, aceitar a minha loucura e partir...

Embora eu seja touro e terra me sinto bem mais a vontade com o vento...

É preciso ferir-se um pouco. Ou muito.
É preciso sentir o próprio veneno.
É preciso sentir a dor feita por decisões precipitadas e erradas.
É preciso sentir as consequencias.
É preciso sofrer, sangrar...
É preciso ter esperança de que um dia se cure.

Lorena Borges

Making vows that just can't work right

Quisera eu ser forte. Mas não, já percebi, não sou. Estou sempre fazendo promessas das quais não posso cumprir. Estou sempre me arrependendo e voltando atrás. Estou sempre fazendo as coisas erradas. Tenho encontrado as pessoas certas, vivido e convivido com os caras certos, mas na minha hora errada.

amém

"Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. (...) Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. (...) Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas"

Caio Fernando Abreu
tô sem idéia. sem vontade de descrever. de nada. não tenho a mínima idéia do que virá a seguir. inércia é meu sobrenome. ando tão feio. tão sem assunto. me assusto. ninguém mais há em minha volta. tô cansado da minha companhia. só falo besteira. não digo nada com nada. preciso exercitar a pena. se ela se move que seja na minha mão. trêmula e bolorenta. mesmo que seja para ser mais um papel sujo. se isso fosse uma folha em branco, você podia desenhar, descansar a vista. ou escrever um bilhete suicida. mas eu passei primeiro e... se você não se importa, rabisque por cima. por mim tanto faz. acho até que vou tomar um bagaço e ver no que dá. vou à torre de Belém olhar o Tejo. matar o tempo pra não me matar, esse é o meu nome. fiquei nos quartos dessa casa em Benfica o dia todo, ouvindo rock lendo história em quadrinho. boa noite. talvez alguém leia e curta isso aqui. tanto faz. embora tudo que mais quero nessa porca vida é te botar feliz. bagaço basta o meu e o da uva.

dois ponto três lisboa

tô sem idéia. sem vontade de descrever. de nada. não tenho a mínima idéia do que virá a seguir. inércia é meu sobrenome. ando tão feio. tão sem assunto. me assusto. ninguém mais há em minha volta. tô cansado da minha companhia. só falo besteira. não digo nada com nada. preciso exercitar a pena. se ela se move que seja na minha mão. trêmula e bolorenta. mesmo que seja para ser mais um papel sujo. se isso fosse uma folha em branco, você podia desenhar, descansar a vista. ou escrever um bilhete suicida. mas eu passei primeiro e... se você não se importa, rabisque por cima. por mim tanto faz. acho até que vou tomar um bagaço e ver no que dá. vou à torre de Belém olhar o Tejo. matar o tempo pra não me matar, esse é o meu nome. fiquei nos quartos dessa casa em Benfica o dia todo, ouvindo rock lendo história em quadrinho. boa noite. talvez alguém leia e curta isso aqui. tanto faz. embora tudo que mais quero nessa porca vida é te botar feliz. bagaço basta o meu e o da uva.

Chacal
Não sou sozinho,
tenho dois travesseiros


É preciso ir em busca da cura

Há algo errado. E os minutos correm apressadamente.

Melancolia s.f (gr. melancholia, de melanos, sombrio e chole, fel) 1. Depressão intensa vivenciada através de um sentimento de dor moral e caracterizada por diminuição psicomotora e por idéias de suicídio. 2. característica dominante de qualquer coisa que inspira tristeza.

Sou o que se chama de pessoa impulsiva.

"Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei."

Clarice Lispector


Há algo acontecendo e eu não posso supor o que é.

aguda

Mas me doia tanto, tanto, que nem mesmo sabia de onde vinha tamanha dor. Apenas doia, fundo e agudo e me confundia. Era tamanha dor que eu ia perdendo a noção das coisas, perdera até mesmo a noção de quem era e do que fazia. Apenas ia fazendo, seguindo um instinto que nascia sei lá de onde. Eu era instinto, pura sobrevivência e com essa tamanha dor eu tinha apenas uma sobre-vida.
Eu era dor, aguda, confusa.

(escrito numa fila de hospital)

Lorena Borges

Margaridas vieram me visitar.
Sem motivo, apenas vieram.
Não, hoje eu não quero estar sozinha...
Fica, aqui, registrado o pior dos últimos dias.
"Antes fosse uma tempestade, com trovões e chuva forte, mas não, é só um dia cinzento, aliás, são todos os dias cinzentos: sete segundas feiras por semana..."

Eduardo Lopes

menor que

"Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando essas gentes assim menores, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o fone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi."

Não sou de muitas pessoas, as poucas que tenho me bastam.

nós

Eu... sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo era me ver passar por aí

Eu... sei que você disse por aí
Que não tava muito bem seu novo amor
Você tava mais querendo era me ver passar por aí

Pois é...
Esse samba é pra você, ó, meu amor
Esse samba é pra você
Que me fez sorrir, que me fez chorar
Que me fez sonhar, que me fez feliz
Que me fez amar
"Does anybody else in here
Feel the way I do?"

Pink Floyd

que eu me finde

"Estou cansado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis"

Estou cansada de doer. Há sempre algo que dói tanto e tão profundamente que me cansa. É sempre a mesma dor a doer de maneira errada. Tudo me dói.
Passado, presente, futuro.
Sou um doer sem fim, doer a me findar. Essa dor é só minha e só eu sei do seu tamanho.

O que me dói não tem medida.

Lorena Borges

castelo

"Sabe, às vezes, eu me lembro de coisas assim, de muitas coisas, como essa da menina - como se houvesse uma parte de mim que não envelheceu e que guardou. Guardou tudo, até o príncipe que um dia não veio mais. Não, não foi um dia que ele não veio mais, foram muitos dias, em muitos dias ele não veio mais, a água do mar salgava a nossa boca, o sol queimava a minha pele, eu tinha impressão de ser de couro, um couro ressecado, mal curtido. (..) Não sei, não sei até hoje se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas as coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construia um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo."

Caio Fernando Abreu

I'm so tired

I'm so tired, I haven't slept a wink
I'm so tired, my mind is on the blink
I wonder should I get up and fix myself a drink
No,no,no.

I'm so tired I don't know what to do
I'm so tired my mind is set on you
I wonder should I call you but I know what you would do

You'd say I'm putting you on
But it's no joke, it's doing me harm
You know I can't sleep, I can't stop my brain
You know it's three weeks, I'm going insane
You know I'd give you everything I've got
for a little peace of mind

I'm so tired I don't know what to do
"Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo."
Caio Fernando Abreu


Não há contos de fadas.
Apenas histórias reais, com pessoas reais.
Humanas.
"... quero que daqui pra frente a vida seja hoje. A vida não é adiável."


Não tenho orgulho.
(quanto sentidos cabem nessa frase?)

esperava avenca

"...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente"

Caio Fernando Abreu

cheiro que não defino

"No fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem."

Caio Fernando Abreu

"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez."

Caio Fernando Abreu

Toquei nas feridas e elas sangraram.
Ainda sangram.
Há algo que ainda dói.

É preciso aprender a ser sozinha.

sol

"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez"
Caio Fernando Abreu

passado próximo

"Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e em todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu amortecido — da mesma forma — revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um passado próximo. "

Caio Fernando Abreu
"Venha quando quiser, ligue, chame, escreva - tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim"

Caio Fernando Abreu

pássaro

"Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio(...)"

Caio Fernando Abreu

sobre segredos

“Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio. (...)Guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.”

Caio Fernando Abreu
Há sempre uma chaga nova.
É preciso ir em busca da cura.

LORENA FOI EMBORA

"(...)Me confunde os sentidos tentar compreender como pessoas tão distantes atropelam a geografia para demonstrar que semprem estiveram próximas. É um alento saber que a Lorena foi embora... fez história onde menos esperava e segue viva na lembrança de outros sonhadores. Tudo isso renova o fôlego para a caminhada, a despeito de todos os problemas."



È tarde e o sol morre na contramão
Quem sabe a nuvem pare o avião
Que o desamparo leve a saudade
O meu amor foi solidariedade
Os meus joelhos estão bem cuidados
Eu vejo anões por todos os lados
A ironia ainda desafina
Cada cabeça, uma guilhotina
Minto quando eu quero
Como é fácil negar
Não me desespero
Se ainda posso fugir
Dissimular ou desistir
Tudo o que resta agora
Lorena foi embora..
"Deixa, se fosse sempre assim
Quente, deita aqui perto de mim
Tem dias, que tudo está em paz
E agora os dias são iguais..

Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito"

pequenos demônios

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!'. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um Deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

Nietzsche
Nosso maior pecado foi o tédio.

nib

"E foi aí que tive a certeza, que mesmo sobre todos aqueles sofrimentos eu tivera feito a escolha certa. Eu sabia que desde o começo o cara com que estou agora é o cara certo. Não para namorar por um tempo indetermindo, mas para estar por toda uma vida. Mas soube disso, somente quando, prematuramente, me entreguei a ele.
Eu tinha certeza que era ele, como sempre soube no meu íntimo que seria, pois ele me envolvia numa sensação mágica, de que cada minuto ao seu lado seria mágico, assim como foi. Eternizei cada segundo, porque tudo era uma experiência nova. Pela primeira vez na vida eu estava ao lado de um cara que tinha orgulho, que admirava, e que finalmente achava bom o bastante para mim, até mesmo, muito mais que o bastante. Agora era eu quem assumia, como já dito anteriormente, a posição inferior, era eu quem deveria mostrar merecedora dele, era eu quem não deveria ser infantil.
Eu envolvi nosso relacionamento num sonho mágico, da qual não queria despertar nunca.
Me sentia incomensuravelmente insegura, criança e infantil. Sofria por isso, e muitas vezes o ciúmes me assolou, ciúmes do passado, porque eu era virgem, pura, inexperiente, e sempre segui a risca todas as regras. E me sentia estúpida por isto. Tinha medo de ser enganada, traída, trocada, não sei. Porque me doei de mais para este romance, mudei todos os meus caminhos traçados, desesti de todo um percurso que eu estava fazendo para viver o que estava para viver agora, com um cara que admirava tanto, e que, com sua simples presença me dava um impacto absurdo. Muitas vezes, ao seu lado, não soube onde por as mãos, o que falar, fazer, ficava até certo modo me controlando para que ele não percebesse o quão sem graça eu era/sou. Eu tinha medo de fazer alguma coisa errada, e ele ver que eu não era capaz de fazê-lo feliz, embora eu fosse capaz de ser feliz apenas por estar ao lado dele.

A gente não tinha muito assunto, e para preencher o vazio, nos beijávamos. E até mesmo o beijo era diferente, totalmente diferente de todos os que já experimentara, e com o tempo incrivelmente bom, porque combinava com ele. Um beijo ímpar para uma pessoa ímpar. Um beijo carregado de carinho, atenção, e porque não: amor.
Ele começou, então, a fazer parte da minha vida para sempre, porque o que vivemos, esse 'mundo bolha-mágico', estará sempre comigo.

E é com lágrimas nos olhos que percebo agora, o quanto eu lhe quero bem, e o quanto eu estava certa, em saber, quando decidi que rumo tomar meus relacionamentos, que você seria sempre o homem capaz de me fazer feliz, por mais que muitas vezes eu tenha imaginado que a mágica tenha se acabado, você, com um sorriso e um abraço a trouxe de volta.
Eu colocaria a minha felicidade em jogo, pela sua. Como já o fiz, e por vezes continuo a fazer.

Talvez esse retrospecto tenha virado agora uma declaração que jamais será ouvida. Pelo menos jamais será entendida na essência de que deva ser, porque é assim, meio sem nexo, e por impulsos desconexos que vou escrevendo essas linhas. Mas nada disso importa, porque essas linhas, se forem lidas, terão apenas uma leitora: eu. E se por acaso mais alguém as ler, se sinta vangloriado, porque então, guarda dentro de ti um pouco de mim, este 'mim' que lê esta carta agora."
(dezembro/2006)


E é deste texto escrito em 2006 e publicado aqui que retomo para o ponto final.
Porque mesmo depois de tudo o que vivi as minhas palavras e meus sentimentos são os mesmos que me envolviam: você continua a ser o homem que tanto quero bem, o homem que amo e sempre amerei, e que me faz feliz, mesmo não estando comigo agora. É o homem que eu sinto ciumes, raiva, amor, desespero, saudade, angústia, felicidade, solidão, tristeza, tédio, alegria.
É o homem que conseguiu despertar em mim todos os sentimentos que uma pessoa poderia sentir. É o homem que amo. E amo tanto e tão profundamente que o deixei livre, porque eu não poderia mais te acompanhar, e você já não me acompanhava mais.

Antes interromper o processo no meio e ficar com uma coisa boa do que com a certeza de algo ruim.
Esse foi o homem da minha vida. Esses foram os anos, os 27 meses e 3 dias mais importantes e intensos que tive até então. Esse foi você e eu, vivendo o que achavamos ser bom e certo.
O amor não acabou e continuará em mim sempre. Então porque interrompi o processo?

"Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. "

E acabaria em dor, bem sei. E assim como foi mágico e perfeito o nosso início, queria que o final também fosse. Porque terminar em meio a mágoas e brigas quando poderíamos fazer com que o fim também fosse belo?
Eu o amarei para sempre. Embora saiba que o amor não acabou, as outras coisas essênciais foram morrendo aos poucos. Eu morri aos poucos, esqueci. Ele morreu, me esqueceu.
Já não havia expectativas, sonhos, confiança, risadas, cumplicidade, nostalgia, 'frio-na-barriga'. O que restara fora o amor e a comodidade.
Antes interromper o processo no meio e ficar com uma coisa boa, a certeza de que o amarei para sempre, e de que ele será para sempre o homem da minha vida. (mas é válido lembrar que o 'para sempre' não é todo dia)

E é sem poesia nenhuma, sem palavras bonitas e sem lágrimas que coloco aqui o meu ponto final.
Com alguma dor, profunda e dilacerante, que ainda hei de sentir. Uma dor que se tranformará em arrependimento na proxima vez em que eu o verei. Uma dor que, espero, se transforme na certeza de ter feito a coisa certa.
Não podia insistir em algo que eu saberia que não acabaria bem. Eu não poderia insistir no meu próprio fim.

"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."

E na novíssima leveza do ser, te amar eternamente. Como uma coisa boa.

Lorena Borges



...


É preciso colocar alguns pontos finais e virar a página.
Outra história nasce para ser contada.

morre de tédio

"o amor nunca morre de morte natural. morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. morre de cegueira e dos erros e das traições. morre de doença e das feridas. morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho."

Caio Fernando Abreu

REBELDIA


Soltem-me
as algemas


Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre


Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida

Manuela Amaral

- Oi, tudo bem?
- Tudo Bem...
...Fora o tédio que me consome,
todas as 24 horas do dia,
fora a decepção de ontem a decepção de hoje,
e a desesperança crônica no amanhã,
tenho vontade de chorar,
raiva de não poder,
quero gritar até ficar rouco,
quero gritar até ficar louco,
isso sem contar com a ânsia de vômito,
reação a tal pergunta idiota
...Fora tudo isso, tudo bem.

Desconhecido

que é essa saudade toda?

"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”

Caio Fernando Abreu

Canção de saudade.



Tudo de alegrias e de tristezas conheci,
Coisas do amor e do sofrer, eu já senti,
Nada me transforma a alegria de viver,
Ver a noite vir e sorrir, ao sol nascer,
Vivo esperando o novo dia,
Que irá trazer a luz, que sempre ficará !

Cartola

Ácido

"O novo incomoda. Por quê? Porque desafia. Mas, queiram ou não, o novo sempre vem. E, para nossa felicidade, o novo geralmente vence. E, quando o novo vence, vence. A máquina do mundo gira melhor. Novos projetos deixam as tristezas numa agenda que não se abre mais. Novas crianças surgem para nos dar as mãos. Novos passos exigem de nós coragem. O novo é belo porque nos muda, nos leva a novas estações. O novo nos torna pessoas melhores porque nos torna novas pessoas. O novo é lindo. Assim como os sonhos, o novo não envelhece".

Um pierrot retrocesso, meio bossa-nova e rock´n roll...

Ácido.
E por vezes indigesto também.

Eu sou um ser humano ordinário. Um pacote de carne, água, sonhos, crenças, algumas qualidades, vários defeitos e vazios. Por vezes até um idiota, mas um idiota que tenta melhorar sempre que enxerga seus erros.

Eu?

Eu exponho meu modo, me mostro. Eu gosto de opostos. Amo mais quem me olha torto do que quem me sorri sorrisos cretinos. Estou de passagem, num olhar, num flerte, te conquisto e te descarto, meu papel é curto.

Não tenho tempo, nunca tenho tempo! Ele foge de mim como os pombos das praças fogem das crianças.

Louco.

Louco e livre.
Tal qual o vento.

Irremediavelmente perdido entre os parâmetros do bom senso que regem a ditadura da rotina e da hipocrisia cotidiana.

Irremediavelmente preso à ânsia pela liberdade. Falso humano, pelo menos no quesito humano de sempre buscar ser uma divindade. Resolvi investir o tempo que seria gasto ao tentar descobrir os mistérios da origem e do fim da vida no simples fato de tentar tornar a própria vida melhor.

Apaixonado pelo ato de engenhar, busco melhorar tudo por caminhos diversos, ainda que às vezes tropece e acabe, besta e estupefato, rindo descontroladamente do próprio tropeço. Sou otimista até o limite entre o otimismo e a estupidez, sou sincero até o tênue limite entre a sinceridade e a falta de bons modos. Sou hipócrita, como todos, imperfeito e por vezes mesquinho, como dizia um tal poema em linha reta.

Mas e daí?

Tudo oscila entre a necessidade do sentimento de pertencimento ao grupo e do sentimento de destaque. Em outras palavras: no fundo, todo mundo é diferente e é normal.

Todo mundo gosta mesmo é do comodismo corrosivo, dos colos quentes, das coxas grossas, da carne exposta. Todo mundo gosta mesmo do que se rasga, de ver os outros arriscarem, enquanto eles mesmos apenas mordem suas pipocas crocantes e barulhentas. E o que mais estimula a todos é achar que "todos" são apenas os outros, que eles mesmos, com seus pezinhos de ouro, estão mais limpos e cheirosos em seu pedestal.

Estou devendo cartas, várias cartas.

Leiam tudo como quiserem. Cada leitura é projeção da mente que lê, talvez mais até do que da que escreve. E este profile não é mais um cardápio do orkut, embora dizer isso, por si só, já o caracterize assim...


"...mas as pessoas da sala de jantar, mas as pessoas da sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer..."

Desconhecido
Aonde foi parar toda aquela paixão de outrora?
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”

Clarice Lispector

como se eu mesma tivesse escrito

Até os meu escritos, sobre os quais tanto se argumentou e discutiu antes estão aposentados, eu simlesmente não tenho tempo de me ocupar deles e aos poucos o desejo de escrever vem desaparecendo. Mas será que realmente eu tive esse desejo? Não seria apenas uma iusão, uma inútil busca da perfeição? Eu gostava de compor só na minha cabeça, ao passo que, no papel, as coisas eram totalmente diferentes, o ardor passava e não saia nada de bom. Agora já nem sonho me tornar um gênio, já não tenho aspirações, até o meu costumeiro jogo não funciona mais.

As vezes me interessa analizar meu passado, examinado-o de ponta a ponta. Desde que eu era pequena, meu carácter revelava algumas fraquezas: uma disconfiança que as vezes chegava ao absurdo, uma índole de sonhadora. Quais eram os meus pensamentos, as minhas expectativas, ou, ainda, qual era e como se chamava o meu jogo, isso jamais contarei a ninguém.
Nos últimos anos, eu gostava de ficar sentada durante horas inteiras no meu quarto, a excogitar coisas diversas, falar em voz alta, sonhar, viver, refazendo a mesma coisa de mil maneiras diferentes.

Quando eu tinha 7 ou 8 anos, minha circunspecção se tornara doentia, em cada palavra eu vislumbrava um significado oculto, uma conspiração contra mim, tinha medo de tudo e, quando ficava sozinha, controlava todos os cantos e recantos para verificar se não havia ninguém ali. Naqueles anos, frequentemente me acontecia ter sonhos incríveis, verdadeiros e pavorosos, que eu esperava com horror e dos quais dispertava suando frio e com o coração batendo forte.

Um sonho, sobretudo, era recorrente. Por si só, não significava nada de especial, mas me provocava uma náusea, uma vontade de vomitar a nivel puramente físico, e durante anos continuei a ter aquela sensação, mesmo acordada. Eu tentava entender, analisá-lo atentamente para compreender as razões dele, mas nunca consegui. Depois, essas estranhezas me induziram a um pensamento curioso: Será que eu não estou psiquicamente doente, será que estes não são ataques de uma loucura sui generis? As vezes há momentos nos quais você acha que está enlouquecendo, que alguma coisa se dispedaçará... uma sensação louca, selvagem e insensata.
Eu berro como um animal, pavarosamente, com todas as forças, a tal ponto que meus cabelos se eriçam na cabeça...

Nina Lugovskaia

"Te entrego os meus medos, meu erros, meus segredos"

póstumo

E depois de longos abraços, de beijos calorosos, de sorrisos esparsos chegará o dia em que as bocas não se encontrarão, que os abraços serão frouxos e os sorrisos escasso.
Depois de longas declarações, promessas de amor, palavras doces chegará o dia que as frases não farão mais sentido, que as trocas serão amargas, e que as declarações serão apenas rotina.
Depois das cumplicidades chegará o dia em que nem conversarão.
Depois das cenas de carinho virão os dias em que tudo cansará, até mesmo poderão o interesse pelos desentendimentos.
Depois chegará o dia em que não haverá sequer uma palavra a ser dita.
Depois chegará o dia que, de tão cansados e distantes, não haverá nem mais forças para terminarem aquilo que não existe mais.

Não mais juntos, porém no mesmo caminho, unidos pela comodidade.

Lorena Borges
"Não esquecer que, por enquanto, é tempo de morangos"


Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar
Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz

Disfarço mágoa com carinho.

"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza."

Caio Fernando Abreu
Comprei sapatos verde-limão!
É, que ousadia, não? Para quem tem um guarda-roupa tão degradê até que estou bem coloridinha, né? Mas este é meu troféu. Entre as blusas pretas, as calças básicas, os sapátos sóbrios eis que agora surge um verde-limão. E mal chegou já virou xodó. Nem ousei colocar junto com os outros. Não! Seria uma ofensa ao recém-chegado! Coloca-lo junto ao chatos, pretos, sujos, fétidos, cinzas, sóbrios, embromáticos. Não!
Fiz do sapato parte do quarto. Coloquei estrategicamente do lado da cama. Assim juntinhos, meio na diagonal, como se estivessem ali por acaso.
E no quarto, entre os móveis monocromáticos, eis que surde agora meu sapato verde-limão!
Que ousadia! Que ousadia!
Um verde. Um limão. Um verde limão. Um limão verde. Mas sem amargura, enchendo meu quarto de douçura. Invadindo assim... e assim invadindo... Invadiu!

Já é tarde, agora é o sapato verde-limão, o quarto, e eu.

Coloco meu novo sapato verde-limão, e vou passear, sozinha, levando a saudade, com gosto de limão, e a esperança a pintar de verde essa minha solidão.

Lorena Borges

Alice(ando)

Se Alice se visse
Se Alice se tocasse

Se ali Alice se sentisse

Talvez ali Alice se gostasse


Lorena Borges

"Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu."

Caio Fernando Abreu

ista

Sou individualista. Leio livros, escuto música, escrevo. Tudo para mim. E para quem mais seria?
Sou individualista. E faço tudo para mim. Compro chocolates, degusto. Arrumo a casa para mim. No meu aniverssário costumo ir na padaria comprar um bolo e brigadeiros. Arrumar a mesa, encher balões. Enfeito a casa para mim. E gentilmente canto parabéns. Baixo. Cansei de esperar demostrações de afeto de outrem. Faço-os eu mesmo então. Eu me parabenizo pelo simples fato de estar ali, comemorando individualmente meu próprio aniverssário.
Acordo e me abraço, a melhor maneira de começar o dia! Receber um abraço de quem mais te ama e te compreende. Escolho uma boa roupa, se for preciso combino chinelo com blusa de frio. Tomo banho e faço-o de ritual sagrado de adoração. Adoração a mim mesma. Passo meus cremes. Seco meu cabelo. Me massageio. Tudo para mim.
Sou individualista. Egoísta.
Se saio de casa e para sentir o vento tocar meu rosto e balançar meu cabelo. Porque eu gosto dessa sensação. Se lhe dou bom dia é para ver o seu sorriso, não porque sou educada. Sou individualista. Egoísta!
Quantas vezes vou ter que repetir isso?
Cansei de me doar, de tentar fazer os outros felizes. E a minha felicidade? Quem irá lutar por ela senão eu mesma?
Sou individualista, egoista, egocêntrica e foda-se! To bem assim ;)

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."

Lorena Borges
"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."

Caio Fernando Abreu

Se alguém perguntar por mim diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. Se houver motivo é mais um samba que eu faço. Se quiserem saber se volto diga que sim, mas só depois que a saudade se afastar de mim. Tenho um violão para me acompanhar, tenho muitos amigos, eu sou popular. Tenho a madrugada como companheira. A saudade me dói, o meu peito me rói. Eu estou na cidade, eu estou na favela. Eu estou por aí...
O pior dos problemas da gente,
É que ninguém tem nada a ver com isso.
É um querer.
É um se consumir
É se consumir.
É se querer.

É um se.
É se um.
Se dois virasse um.
Se um virasse três.

Se sendo fosse pela felicidade de dois ser um.



Lorena Borges

AMOR É PROSA, SEXO É POESIA

Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão do Leblon:
- Teu artigo sobre amor deu o maior auê... – me diz uma delas.
- Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que você tem contra as mulheres que barbeiam as partes? – questiona a outra.
- Nada... – respondo. – Acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas partes dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney... Lembram um sarneyzinho vertical nas modelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo...
Uma delas (solteira e lírica) me diz:
- Sexo e amor são a mesma coisa...
A outra (casada e prática) retruca:
- Não são a mesma coisa não...
Sim, não, sim, não, nasceu a doce polêmica ali à beira-mar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas. Ninguém sabe direito. As duas categorias trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais “sutis” defendem o amor, como algo “superior”. Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa.
O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo isso. Sexo é contra a lei. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre de tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão posteriori pelos prazeres do sexo.
O amor vem depois, o sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento.
No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições: não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrrário não acontece. Existe amor sem sexo, claro, mas nunca gozam juntos. Amor é propriedade. sexo é posse. Amor é a casa; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em “doação”. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio e veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também – tudo dependendo das posições adotadas.
Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do “outro”; o sexo, no mínimo, precisa de uma “mãozinha”. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mas sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes e uma masturbação. Seco, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval.
Não somos vítimas do amor, só do sexo. “O sexo é uma selva de epiléticos” ou “O amor, se não for eterno, não era amor” (Nelson Rodrigues). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: “Faça amor, não faça a guerra”. Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provinciais do século XII e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção. Sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controla-lo é programa-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias.
Não há saunas relax para o amor. No entanto, em todo bordel, FINGE-SE UM “AMORZINHO” PARA INICIAR. O amor está virando um “hors-d’oeuvre” para o sexo. O amor busca uma certa “grandeza”. O sexo sonha com as partes baixas. O PERIGO DO SEXO É QUE VOCÊ PODE SE APAIXONAR. O PERIGO DO AMOR É VIRAR AMIZADE. Com camisinha, há sexo seguro, MAS NÃO HÁ CAMISINHA PARA O AMOR. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. Sexo precisa da novidade, da surpresa. “O grande amor só se sente no ciúme” (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda (ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E por aí vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá... e-mails de quem souber para o autor!

Arnaldo Jabor