"a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões"

"sou "eu" que não coincido jamais com a minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apóia nela), e sou "eu" que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco: ah, se ao menos a Fotografia pudesse me dar um corpo neutro, anatômico, um corpo que nada signifique!"



é estranho. estar com você.
querer você.
e logo após desejar estar completamente sozinho

sumir do mundo que me conhece.


esperando que sintam saudade.

amor

Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. muito leve, leve pousa. na simples e suave coisa suave coisa nenhuma. sombra, silêncio ou espuma. nuvem azul que arrefece. que em me amadurece
sonhei que estávamos juntos
de novo e de novo e de novo
não me importava mais com ações
que sei que me machucariam
e estavamos de novo sendo um
no abraço tão abertado
na vontade tão sincera
que marcamos nosso casamento
para breve
para o começo do ano
o meu casamento com a única pessoa que já pensei ser possível.

dizem que sonhar com casamento é anuncio de morte.

aguardo.
o tempo é contato em cigarros.
acalme-se pequena,
cometa a overdose de si mesma.

o fim prematuro ou previsto
do que sempre foi apenas nessa minha vida pensada
agora era a hora de ser niilista
mas sigo acreditando
e agora, acreditar dói, pois é tardio
sou só. sou só de ti e sempre o soube
mas, infantilmente, tentei viver uma vida que não era minha
há alguma semelhança
(espero que a passagem prematura
seja a mais forte delas)
a visão molhada não se afoga agora
agora que me encontro no sossego de mim mesma
a certeza que sempre tive me foge
o niilismo que sempre carreguei
da lugar a uma crença destrutiva
atravesso sem olhar para os lados
ando sem cuidado
não haverá mais geléias, jornais ou palavras ao pé do ouvido
não haverá o que nunca de fato existiu
essa vida que não era minha e eu vivia
o que sempre ha é essa maldita esperança
a pesar o peito e a alma
e encharcar os sentidos e inundar
o que, com dor, tento ser
estou só, sou só
e sentindo ainda mais mais só
estando só de ti.

só.
o gosto do escondido
na boca da manhã.
já não sei o que é ou o
que poderia ser
já não sei o rumo que tomo
ou as coisas de que diz da minha vida
estou perdida em alguma rua da
minha infância
entre a parte do que não sou e
do que tento ser
entre o que fui e os outros me fizeram
entre o que penso ser e sei que
definitivamente não sou
a morada que não me reside
o ventre sempre vazio da solidão
que sou

das verdades do agora

"Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornaram estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Eis por que a tristeza também passa: a novidade em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto. Nem está mais lá - já passou para o sangue. Não sabemos o que houve. Facilmente nos poderiam fazer crer que nada aconteceu; no entanto, ficamos transformados, como se transforma uma casa em que entra um hóspede. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que pe o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidenta, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e impertubável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quanto, num dia ulterior, vier a "acontecer" - isto é, quando sair de nós para se chegar a outros - . sentir-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso - e a nossa evikução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido 0 que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito. Já se modificaram muitas noções relativas ao movimento; há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Afigurou-se-lhes tão estanho que, em seu confuso espanto, julgavam-no saído delas justamente naquele momento, e juravam nunca antes ter encontrado em si algo parecido. Como os homens durante muito tempo de iludiram acerca do movimento do sol, assim se anganam ainda em relação ao movimento do que está para vir. O futuro está firme, cara sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.
Como, pois, não seria difícil a nossa sorte?"

Rainer Maria Rilke
em Cartas a um jovem Poeta
quero o sangue do filho que não veio.
o esmiuçar do ventre que não produz.
quero a dor do que não é
do que não muda
do que não transforma
quero a exatidão do meu corpo em todos os meses
quero o vazio do meu ventre
preenchido pela dor aguda do meu peito
quero a infância tardia que não virá nunca
quero a imaturidade dos meus gestos
e a responsabilidade em aceita-los
quero a idade não avançada
o cabelo branco que não virá
a dor que vem
com o filho que não vem
quero o vazio

já estou cheia de tudo.

e juntos,
acreditar outra vez.
então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
(maiakovski)

universo infinito

"E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de idéias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida como ela é e não forme idéias preconcebidas de espécie alguma em sua mente".

Jean-Louis Lebris de Kerouac

serendiptidade.

é confuso. estou perdendo a razão. é difícil distinguir o que é real do que não é. a realidade tem se apresentado cada vez mais ilusória e as dúvidas me consomem. não me preocupa a morte. partir parece cada vez mais fácil. não há barreiras entre o real e as outras esferas. me sinto flutuando em um lugar sem tempo nem espaço. o tempo também não parece real. me confunde. olhar de inseto a ver o mundo correr devagar, olhar de tartaruga a ver o mundo correr depressa. conheci pessoas a frente de seu tempo e me sinto cada vez mais atrasada. cada vez mais estou flutuando mais e mais pesadamente nesse vácuo de tempo, lugar e realidade. meus sonhos tem sido cada vez mais lúcidos, e minhas realidades cada vez mais ilusórias. já não sei distinguir vontades próprias dessa vontade de que tudo move. temos realmente que respeitar o fluxo? mas não tem sido fácil entendê-lo. não sei se fico ou se vou. não consigo mais ver os sinais, me perdi dentro da minha realidade. é confuso. tenho desenhado. nunca o fiz antes na vida. mas agora há a vontade e uma certa habilidade débil. há algo acontecendo e eu não posso supor o que é. algo grande e estou participando. sinto que é preciso correr atrás do tempo perdido e me preparar para o que está por vir. real ou não. experimentar. viver. acumular experiências. arriscar. a vontade de começar novos caminhos é cada vez mais forte. é confuso. tenho sido eu ou tenho sido o molde do que me fizeram? conheci pessoas a frente do seu tempo. parece não haver necessidade de não se preocupar com a realidade, por mais que doa. nada parece real. acho que não é. debilidade inútil de meus escritos. relações confusas e cheias de lacunas. somos seres solitários em expansão. não há nada além das nossas próprias vontades. o universo é esse que se passa dentro de minha vida pensada. o que resta? minha vida pensada não é real. então o que resta é essa não realidade das coisas. são as coisas como vejo, como desejo. e se desejar bem forte eu consigo. toda vida é sofrimento mas é possível alcançar a supressão do sofrimento. o budismo me ajuda. e quando me falta ainda há o niilismo ou outro filosofia qualquer. não há nada além da nossa própria mente. o que sou não tem medida. pois não se posse calcular o seu tamanho. fujo de mim mesma como quem foje da própria realidade. um dia eu me encontro.

is this real life?

dor de parto
do que ainda não sou
confusão linear do que
ainda não é
as janelas fechadas para a rua da minha infância
já não sei se lembro ou se invento
já não sei se sou ou imagino
ofusca-me a realidade dessa vida não vivida

vomito de mim

ela tem olhar de binóculo, eu tenho o olhar perdido.
envelheci 7 anos nas últimas 6 semanas.
um peso comprime no peito,
um nó se forma na garganta.
o peito,
lugar onde o coração está é onde parece mais doer.
o peso do fruto que não carrego no ventre comprime meu peito para que se deforme.
retire a forma de que já é.
diria que é preciso aprender tudo de novo.
aprender a amar, re-amar.
remar.
afogo-me nas lágrimas que já não produzo,
embora haja vontade.
ela tem binóculos agradabiliss, eu tenho a angustia estampada na cara.
a dor do que é, do que poderia ter sido, não foi

e é tudo.

Il ya toujours quelque chose d'absent qui me tourmente

Há algo que ainda machuca, que dói.
Uma ânsia de vômito qualquer.
Um embrulhar de estômago no canto do íntimo.
Dor, amargura, angustia profunda. dilacerante qualquer.
os vermes dançam no meu ventre.
ventre este que não nasce um novo coração.
há outro ventre com um coração por dentro.
quisera eu que não. quisera eu que inicio de maio não doesse.
os caminhos não trilhados (Frost sabe do que falo)
profusão confusa. angustia dolorida.
meu ventre podre, que não poderia dar fruto
pois coração não nasce aonde há vermes
há sempre alguma coisa ausente que atormenta.
namoradinha de Rodin me disse uma vez.
e quem há de entender?
nem eu mesma me entendo, e nem é para entender
há só de engulir, engulir, engulir,
na esperança de que se digira algo de bom,
a minha própria merda do que não sou
o que não fui é que me dói
os telefonemas me machucam
o apaguei da minha lista, não atendo mais certos números
há uma vontade de saber do futuro
espero que eu consiga
que consiga conviver com o fruto que não é meu
que não me doa o existir dos outros
não-poema sem poesia
não há doçura nessa amargura que sinto
o frio na barriga que me acompanha em cada pensamento
o telefone que toca, e a pessoa errada do outro lado da linha
que o início de maio não me doa.
não mais do que ainda me dói agora.

férias.

do por enquanto.

"Cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo o que há de vir."
"Creia no futuro"
é o que já dizia Jorge Mautner.
estou crendo, estou sendo.
dor, mágoa, rancor.
tudo acumulado em medidas desmedidas.

déjà vu

A esperança pesa.

só a infância presente existe

"Ouvir rock, ver a chuva, beijar uns lábios, deitar com uma ou outra carne na cama e sentir o sexo. Depois de horas e horas de pensamento e desistência e ridículo e paradoxos e uma vontade louca de viver! Mas o sono me puxando poderosamente. Então eu ouço Rock e olho a chuva e penso no sexo. Depois tudo se mistura porque na verdade tudo existe misturado: o sexo, o Rock, a chuva e então eu durmo. Eu durmo e durmo e sonho em ritmo de rock e vejo a chuva no sonho e o sexo se sobressaindo em todos os lugares. Sonhos agitados nos quais existe algo que eu esqueci de citar. Algo que balança que nem uma bandeirinha vermelha em meio à chuva, ao sexo e ao Rock. É a infância. Será que o Rock, a chuva e o sexo não passam de infância e que só a infância presente existia? Só a infância presente existe! Lembre-se disto: só a infância presente existe!"

(Jorge Mautner)
tenho saudade
sob aparência de medo e remorso.

carta a Helena

Culparia o álcool, a bohemia, a cidade grande, as drogas, as farras, os livros, os escritos, os Caios Abreus, os discos. Culparia o de mais fácil e acessível para tirar a culpa que é inteiramente nossa e de nossas escolhas. Já não somos adolescentes, embora às vezes imaturas. Já não somos inocentes, fomos machucadas pela vida e pelas responsabilidades. Ainda assim temos que manter o brilho nos olhos. Sou o que você me fez ser. Você me cicatrizou e marcou, a cicatriz-tatuagem maior e mais profunda que tenho. Penso em você sempre, todos os dias com tanto amor que até me dói vezenquando. A vida nos levou para caminhos tão distintos. Te queria aqui comigo, conversando sobre nada, sobre tudo, sobre o que somos e bebendo um vinho barato, tão barato quanto o que ainda somos. Você sabe exatamente como eu agiria. Como seria capaz de numa loucura qualquer juntar as minhas coisas e partir, por mais que doa, apenas pela vontade e curiosidade de saber o que tem por aí. É o momento das experimentações. Saber, provar, conhecer, aproveitar.

(apenas uma página para um dia - cada medida desmedida)

e me veio à cabeça

Mantenho na força fina do que fabrico
aquilo que já não leio.

matheus disse:

Já ouviu a lenda do prometeu acorrentado?
Os humanos no principio tinham 4 braços e 4 pernas e eram hemafroditas e gostavam muito de Prometeu, um deus do Olimpo que era mais querido que Zeus. Um dia, querendo retribuir o carinho, decidiu dar aos humanos o fogo, de presente, Zeus com ciumes e bem bravo de deixar os humanos com uma coisa tão poderosa e preciosa, acorrentou prometeu num penhasco onde todo dia vinha uma águia e devorava seu fígado que regenerava pra ser comido no dia seguinte, eternamente. Os humanos ele castigou de outro modo: separou os seres perfeitos que eram em dois, homem e mulher, e os condenou a procurar sua outra metade pra se sentir perfeito

Amor e essas coisas todas é uma condenação.

do caos

organizo meus papéis,
minhas gavetas,
meu quarto,
como quem tenta organizar
a confusão de si mesmo.

navegar é preciso

"carrego coisas pesadas e quase não mais flutuo. há tempos, navego sem encontrar portos pelo caminho. lugares onde se possa parar. descarregar as cargas amontoadas. atirar o que é sobra ao chão do cais. navego enquanto posso, sem conseguir me livrar da bagagem. das pedras dentro das malas. sabendo que a mudança foi com a embarcação e não com o mar. navego, sabendo que afundar é questão de tempo."

(Eduardo Baszczyn)

como diriam: mira na fé e rema.

não é fácil assim, mas...

"Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo - deixa o vento soprar, let it be, fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco"

(Caio F. Abreu)
E agora, José?

do agora.

"Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor."

(Drummond)

O Livro do Desassossego

Abri o livro aleatoriamente,
e a aleatoriedade me deu isto:

"Uma brisa leve, uma conversa sem intuito nem propósito, um púcaro de vinho, flores, em isso, e em não mais do que isso, põe o sábio persa o seu desejo máximo. O amor agita e cansa, a ação dispersa e falha, ninguém sabe saber e pensar embacia tudo. Mais vale pois cessar em nós de desejar ou de esperar, de ter a pretensão fútil de explicar o mundo, ou o propósito estulto de o emendar ou governar. Tudo é nada, ou, como se diz na Antologia Grega, “tudo vem da sem-razão”, e é um grego, e portanto um racional, que o diz."

palavras de minha boca.

"Porque não suportava mais todas aquelas coisas por dentro e ainda por cima o quase-amor, a confusão e o medo puro."

(Caio Fernando Abreu)

do agora.

"ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angústia, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano comigo mesma, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de “atraiçoamos-todos-os-nos-sos-ideais”, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, magra, burra, alienada e completamente feliz."

das verdades.

"(...)às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas."

(caio fernando abreu)

epitáfio de um amor mal nascido.

entre a aceitação do fim prematuro
- do que poderia ter sido, não foi e é tudo -
e o frio na barriga da esperança do que já não é.
me tirem desse sufoco de mim mesma.

são joão

(...)mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel"

Carta à Laryssa

(...)A verdade é que somos um, para cada um que nos conhece. Não há nada além das nossas vontades. O universo é só este da minha vida pensanda. Quantos universos existem! E quais são reais? Não ha realidade, pois há tantas realidades quanto mentes-para-si-pensando. Há apenas vontades. Como essa vontade de lhe escrever agora sem nexo, de deixar que uma linguagem vulgar e incompleta diga por mim o que na verdade não pode ser verbalizado. Há sempre o erro da verbalização, o erro do tentar inutil da linguagem dubia de dizer aquilo que são formas, sentimentos e expressões, que são substantivos altamente abstratos, não verbos, locuções nem sequer adjetivos. Há sempre o erro das vontades, e a vontade sobre os erros. Somos talvez isso. A tentativa de alguma coisa qualquer. Os inúmeros projetos que deixamos inacabados. Sou um acúmulo de projetos inacabados, pois estou também inacabada. Em construção do meu eu. Em processo de mudança, reconhecimento e construção. Me sinto velha. Idiotamente velha. Sinto uma urgência enorme nas coisas. Há algo por vir e sinto que devo me preparar. Tenho que correr atrás do tempo perdido que gastei com coisas inúteis. Sinto necessidade de sugar toda e qualquer forma de conhecimento que tiver alcance. Ler livros que me façam pensar, escutar musicas, ver filmes e viver tudo isso. Experimentar. Quero provar de todos os gostos, de todos os lugares, de todas as bebidas, e quiçá de todas as drogas. Quero o acúmulo máximo de experiência. Mas não quero o vislumbre, o olhar idiota, inocente e vazio das pessoas vislumbradas. Quero a sabedoria certa, consciente. Há uma necessidade, uma urgência enorme de se preparar para algo que esta por vir. Me sinto velha e atrasada. Sinto que perdi muito de meu tempo com coisas inúteis, e agora cada segundo é precioso demais para usá-los com o que não me acrescente. É preciso ir em busca da cura. Da cura do pensamento. Tudo tem gerado em torno da intelectualidade. Tenho me tornado mais culta, lido e prestado mais atenção. Tenho me calado mais do que nunca, para absorver com toda sordidez tudo aquilo que me é falado, ensinado e mostrado. E tenho me sentido idiota quando falo, minha voz parece burra, inexperiênte e exitante, quando em minha vida vivida tenho tido mais certezas do que nunca, tenho sido mais firme que qualquer Hittler. É essa linguagem dubia e falha que traz à fala toda a exitação que não ocorre na mente, pois há apenas ideias, desprovidas de sintaxe. Há apenas a semântica, o significado real das coisas sem que elas precisem se organizar. Há algo acontecendo, e eu não posso supor o que é. Mas é bom estar participando disso tudo. Embora às vezes doa.

Amadurecer é amargo e envelhece.
Mas a velhice nem sempre é amarga, há sempre uma doçura em alguma coisa qualquer.

Lorena Borges

porque não se aprende logo seu lugar?

E o passado tem uma mania idiota de querer ser presente.
Quiçá futuro.


inócua

Ora vamos,
não seja tão idiota e inocente assim.

um poço de ingenuidade.
um poço idiota de insegurança ingênua.
você ainda me da uma pitada de sorriso.

Carta à Magno.

Me odeie,
não me importo.
apenas tenha algum sentimento por mim.

(para que tudo que tenhamos vivido tenha valido a pena.)
a vida borbulha
Desligar as emoções.
Ligar apenas os sentidos, sentimentos, sensações.

definição do problema

"Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."

(Caio Fernando Abreu)
menino do brilho nos olhos,

recebi suas palavras, duas mensagens mais precisamente.
tanta coisa lida e linda que me lembra você.
vou aos poucos vomitando palavras doces - vomitando, porque vai do meu mais íntimo - para dar gosto aos dias. doses homeopáticas para fazer bem.
ia te deixar outro escrito, mas vou trocar por um beijo de encontro e um abraço apertado, até sentir o mundo girar apenas para nós.

te espero com o coração pulsando forte!

sei que tudo tem um dedinho seu.

from ▲ chaos: Julho 2009:

fétido,

não queria ser cancêr, tumor ou aids. aqui nesta ruína com cheiro pútrido de comida esquecida deito minhas dores também pútridas. talvez este lugar abandonado me pertença, pertença à minha dor, esse fedor a adentrar minhas naridas sem que eu deixe. aqui parece esquecido, queria me esquecer. deixei muitas dores. quis eu ser flores e tenho sido apenas dores. dor aos pássaros e aos olhos claros. a beleza, e a tristeza, das coisas deve estar no fato de terminarem. paredes com buracos exatos. nunca fui exata na vida. geometria confusa das minhas ações, sentimentos, emoções. a paixão que gera a dor que deixo, em todos. em todos eles que idiotamente me conheceram, queria (...) deixar apenas saudades boas, ausências sentidas, falta apertada. o gesto de boca de peixe. a sina de trazer flores e deixar dores me confunde. evito o erro e cada vez erro mais. talvez um dia o próprio erro aprenda que só ele tem vez. flores e dores talvez porque seja eu intensa. só não sei se isso é bom ou ruim. a gente é melhor quando está morto.

formigável,
ser folha seca no mato.


amor urbano

"(...)e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa — gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você."

(Caio Fernando Abreu)

coração pulsando forte

Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti."

(caio fernando abreu)

a verdade por de trás da porta

"Pomba, só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela... Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece e que estão vivas e tudo."

O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger

Harriett

"sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía vezenquando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando olhando e pensando meu deus ah meus como você me dói vezenquando"

(caio fernando abreu)
Ai que delícia viver isso tudo!
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.
falácia.

Carta a Magno

(...) E ainda sim, ainda sim veja só o que nos tornamos. Dois estranhos um ao lado do outro, pelo medo do que se tem a dizer, pela responsabilidade das palavras que pode nos tirar desse nosso porto seguro que criamos para nos proteger de nós mesmo. De nós dois, proteger um do outro.
Tenho pensando em você mais do que de costume, há uma vontade de apenas te chamar para um café e conversar, conversar, conversar sobre tudo. Sobre todos aqueles hiatos de silêncio que carreguei por tanto tempo. Sobre filosofias ou filosofia nenhuma, sobre o nada, o tudo e o meio. Mas conversar é perigoso, podemos chegar a alguma conclusão, e bem sabemos qual é. E não queremos. Estamos, por hora, satisfeitos com o porto seguro que criamos.
Há o medo tremendo do que pode vir. O medo até mesmo das feridas abertas que insistem em não se cicatrizar.
"vou jogar óleo de linhaça em todas as minhas feridas abertas" (Caño, MAYRA. 2010)

Sempre fui egoísta, vivendo uma vida toda para dentro. Gastanto muito mais tempo nos meu pequenos projetos pessoais do que naquilo que talvez me faça ser quem preciso ser. Sempre fomos todos egoístas, procurando nos outros soluções e atitudes que satisfaçam as nossas lacunas. Amamos as outras pessoas não por quem são, mas pela maneira como ela nos faz sentir. Amamos as outras pessoas por aquilo que imaginamos e idealizamos que são. Fazendo deus de quem quiser, e monstro de quem menos nos interessar. Você mesmo por muitas vezes já foi monstro e deus, um deus-mosntro. Comecei a sentir saudade. Evitamo-nos, por mais que alguns pequenos encontros sejam inevitáveis. Por isso mesmo me proponho, às vezes, em provocar um. Te convidar para um passeio e para um sol. Consigo ver e sentir sua insegurança, o seu medo, o nervosismo em cada palavra silenciada. A verdade é que evito a conversa com medo de que confunda. Por agora, um nervosismo enorme atormenta minhas entranhas e o bambear das pernas me impede que eu corra. Ha um taquicardia doloroso. Não posso fujir, me entupir de alguma droga qualquer e sai por ai sem rumo. Minhas condições me obrigam a enfrentar a realidade, a encarar o problemas. Ou, no mínino, tentar minimiza-los, dar menos importância, fingir que não existem e assim continuar, nesse rio lento e curvo sem afluentes.

Já me diriam que a vida não é um sachê de chá, com fórmula pronta e sabores. Já me diriam tantas e tantas coisas.

Hoje pensei em escrever uma carta de suicídio. Começaria pedindo para que não levassem como suicidio em si, mas como desapego. Vivem dizendo para termos desapego. Mas desapego de que? É muito mais fácil pregar essa filosofia quando se tem do que se desapegar. Desapego de pobre é suicídio.
Quando pensei na carta me veio a responsabilidade, queria ter a genialidade de escrever apenas "fui como ervas e não me arrancaram". Mas, para a última coisa a ser escrita, espera-se algo grande, e não conseguiria cometer o ato até que algo, bem grandioso, fosse escrito por mim. Acabaria desistindo do suicidio por pura vaidade. Apenas para me tornar eterno no que vivo, escrevo e penso. Não conseguiria escrever a ultima carta, as ultimas linhas e as últimas palavras, pois ainda há muita coisa grandiosa que se passa e não consigo trasncrever em papel. Gravaria, se pudesse, o que penso. E penso em tanta coisa. Fiz mais Odisséias do que Eliadas, escrevi mais contos que todos, cantei mais musicas do que Buarque, fui mais artista do que qualquer Picasso. Quantos Césares fui, e mesmo assim, mesmo assim tudo se passa apenas nesse universo barato dessa vida pensada.

"Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada."

Vou escrever sobre isso. Um conto da pessoa que foi salva de seu suicidio por não conseguir terminar grandiosamente a carta, até que a morte, inocente pura e besta venha vestida de cetim.
Pura vaidade.

Mas não hoje.
Hoje quero a loucura dos pássaros e a sabedoria das árvores.

Quero um café e você, com seus olhos fugitivos, de companhia.
Essa vida é um drama barato.

Inteligência tem limites, burrice não.

A minha burrice ainda me permite continuar a insistir idiotamente no erro. No que vai me fuder ainda mais.
epifania.

Carta para mim, de Helena

"Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas"

(Caio Fernando Abreu)

creia

"Sabe bom velhinho. Eu sou poeta. Poeta é fraco, chora, tem medo de apanhar dos homens fortes, mas tem amor tanto amor recaldado que pode às vezes se suicidar por não achar lugar onde despejar seu amor. Velhinho! Creia no futuro."

(Jorge Mautner)

olhos fugitivos

A falta da sua saliva a umedecer o meu íntimo
O mordiscar de palavras ásperas
A lacuna do seu membro no interior de meu ventre
O escorrer do veneno no canto das palavras
A dor amarga do gostar inútil
O que deveria ser, não foi e é tudo.
"Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo esses dois portos gelados da solidão é vera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos."

Abria-me ao sol

"(...)Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jatos d'água.
Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe!
O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração - em todas as partes palpita."
(Miakovski)

The swee sweet life

Se a falta dói tanto em mim
imagine nessas outras tantas pessoas
o dedo sem esmalte
a boca de peixe
a transmutação confusa dos cabelos
o sorriso escondido

quero a sabedoria dos pássaros e das árvore
lidar com minha anatomia
que é toda coração.
inocência.
um poço idiota de inocência.

explicar a mim próprio

"São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui."

(Fernando Pessoa)

O Livro do Desassossego

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados."

(Fernando Pessoa)
Tenho sido constituída de saudade doloridas.
Perder o que nunca tivemos.
"... no desalinho triste das minhas emoções confusas..."
Me sinto tão idiota ás vezes.

Ela não sabe sambar

"Pra mostrar: não sou a única
Mas ainda derramo o amor
Pelas paredes pelas janelas
Pelo chão"

1/2

Por hora não creio na felicidade a dois seja possível.
Somos um único universo particular em expansão.

E lá vai ela se jogar completamente outra vez. (ou não)
Há uma nata espessa de saudade.
"As vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido"

(fernando pessoa)

Eis tudo.

"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

(fernando pessoa)
"Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."

(fernando pessoa)

almas livres

"O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre é mesmo estar morto".

(Carlos Drummond de Andrade)
"Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer (...)"

(Thiago de Mello)
é burrice chorar ate dar do vendo filme?
A morte nunca esteve passeando tão por perto.

Kaos

"(...) Zaratustra falava assim ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros”



"Onde está você que não vem?
Onde está você que não tem?
Será que se escondeu atrás de uma nuvem?
Hein, Hein, Hein?".

(Jorge Mautner)




a esperança pesa.

Ex-Drummer (2007)

“Tenho que dizer, eu posso com muitos sentimentos por vez.
Posso estar completamente feliz e dolorido ao mesmo tempo.

As dúvidas da vida me consomem, e não me preocupa a morte.

Essa combinação é possível se seu espírito é forte, se é grande. Ou seja, para alguém que quer lutar até o final e é tão cinico como o rei de Sião. Alguém como eu. Sou assim, tenho essas dúvidas e sentimentos que mudam.
Fui tão a fundo a ponto de dizer que esses sentimentos dirigem meu trabalho.

A parte disso, tropeço como todos.

Procuro ver para que lado sopra o vento e assegurando-me em não tornar-me louco.

Isso é tudo.”
Já não sei se é sentimento ou álcool.

embriagai-vos

"É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha."

(Baudelaire)
- Sonhei com você.
- Eu também.
- ...
- Não que eu queira ser mística ou pagar de guru, mas tenho tanto a impressão de que foi como uma viagem astral, porque eu sei que era real, assim como eu sei que as suas vontades contidas também são reais.
- Sabe, tenho estudado bastante, e não me surpreenderia se tivéssemos tendo uma experiência maior. Quando eu to com você é um encontro de almas.
- Há algo acontecendo. Nunca vou esquecer de como nossos olhos se cruzaram naquela mesa de bar. Há algo maior.
- "Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia."
"Antes acompanhado do que mau só."

(Matheus Ferreira)


Para os que virão.

"Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero se
r.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando."

(Thiago de Mello)
Não há ciúme pois não há possessão.

Me calo.

E o que diria agora? O silêncio parece às vezes bem mais sabio. Guardo agora o momento em que as coisas são me ditas, a sabedoria de cada um que me completa. Sou um ser atônito em construção, e quando confusa saio para dançar valsa com meu eu.
Me construo e me limito em cada conversa - por mais que a liberdade não tenha limites - estou em construção do meu eu. Não sei o que serei, nem me serás, mas o caminho parece certo e azul. Sinto o cheiro do azul e tenho sido eu mais do que nunca, tenho me construído completa, fazendo eu mesma parte do que serei.

o que sou não tem medida.
sou um sujeito desacontecido.
Por puro pudor sou impuro.

pequenas verdades

Como sei pouco e sou pouco
faço o pouco que me cabe
me dando 'inteira'

(Thiago de Mello)
a objetividade da fotografia é uma falácia.
erram os que acham que ela retrata o real.
o que há é que quando o fotógrafo diz:
- olha o passarinho!
uma ave de asas oblongas sai de dentro da câmera
com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
e pousa sobre seu ombro esquerdo.
de lá, pinta a cena.
em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.

Chacal

Easy Rider

about me:

- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende.

(Clarice Lispector)
"Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,(...)"
pirninhas tortas e olho em forma de gaivota.

Ressureições

"Você foi pela estrada assim
Como quem não vai voltar
Quem fica é quem chora
Até se acabar
Minhas lágrimas se acabaram
Mas não a vontade de chorar
Te amei no dia em que te vi
Domando um bando de leões
Domando aquelas feras, conquistando os corações
Dizendo que o amor nunca morre porque tem ressurreições
Sete mil quartos secretos guardam um segredo
Só o amor, só o amor pode matar o medo"

(Jorge Mautner)
nada nada nada é por acaso


"Eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão"

pequenas mentiras

as vezes eu tenho uma vontadezinha de morrer.
a gente é melhor quando está morto.
"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz."

Estou cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
Eu sou um mosntro ou isso é ser uma pessoa?
Sou uma destruidora de corações.

waking life

"[...] e nas noites solitárias do meu eu, saio pra dançar salsa com a minha confusão."

louca e livre

Conheci a chuva e a tempestade, e por muito tempo almejei descobrir quem seria o vento.
O vento que eu tanto queria e precisava, e um dia, assim, no susto ao dobrar uma esquima me deparei com a verdade: - Eu sou vento.
Desde então a chuva e a tempestade se completaram em mim de maneira extraordinária. A chuva era chuva porque eu era mais calma, a tempestade era tempestade porque eu estava em fúria.
A chuva adquiria a intensidade que quisesse, mas tomava o rumo que eu sobrava. A tempestade era forte porque eu também o era.

Hoje sou vento, e isso me basta.
Estou no ar, mudando as pessoas.
As pessoas estão ao me redor, me dando forma.
"Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre...
Eu estava com Deus!"

eu sinto tanto tanto tanto isso. sempre tem alguém a espreita.
sempre me sinto pesada na cama sem conseguir mexer, e o medo de abrir os olhos porque eu sei que tem alguém ali.

Canto para a minha Morte

"Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...

Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite..

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

te mastigo dentro de mim

"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."

(Caio Fernando de Abreu)
Hoje merece um banho frio e um bom livro, como ha muito não faço.

"- Para onde vai?
Ulisses viu-o iluminado de azul pela lua.
- Para o mundo - respondeu"

(Gabriel Garcia Marquez)


Qualquer bobagem.

Chegue perto de mim
Não precisa falar
Acenda o meu cigarro,
Não queira me agradar
Queira, queira.

Não decida, nem pense
Não negue, nem se ofereça
Não queira se guardar
Não queira se mostrar
Queira, queira.

Escute esta canção
Ou qualquer bobagem
Ouça o coração, que mais?
Sei lá!

Lorena foi embora junto com o vento.
minha vida sempre foi um partir constante.
gosto das partidas e das saudades.
do frio na barriga sobre o que virá.

eu erro.

é preciso crer no futuro

não vamos, pois, perder o brilho nos olhos.

Carta à Helena

Há algo acontecendo e eu não posso supor o que é.
Os dias estão passando cada vez mais rápido.
A certeza de que há uma energia maior na qual personificamos como Deus é eminente.
Estamos presenciando algo importante.
Há tempos venho dizendo que há algo acontecendo e cada vez essa certeza é mais forte. A vida acontece por momentos estranhos, uma dor misturada com descoberta, tal qual o parto - estamos presenciando um estranho parto.
A sutileza efêmera da vida é cada vez mais certa.
Devemos estar preparados para morrer. Desapego as coisas físicas, pois o que realmente conta é inatingível fisicamente.
É preciso estar preparado para morrer, sem arrependimentos.
A vida é agora. Agora é o tempo de fazer as nossas vontades.
É preciso não se apegar a matéria física para ser livre,
Louca e livre, tal qual o vento.
prefiro as letras minúsculas.
Louca e livre.
Tal qual o vento.