The swee sweet life

Se a falta dói tanto em mim
imagine nessas outras tantas pessoas
o dedo sem esmalte
a boca de peixe
a transmutação confusa dos cabelos
o sorriso escondido

quero a sabedoria dos pássaros e das árvore
lidar com minha anatomia
que é toda coração.
inocência.
um poço idiota de inocência.

explicar a mim próprio

"São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui."

(Fernando Pessoa)

O Livro do Desassossego

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados."

(Fernando Pessoa)
Tenho sido constituída de saudade doloridas.
Perder o que nunca tivemos.
"... no desalinho triste das minhas emoções confusas..."
Me sinto tão idiota ás vezes.

Ela não sabe sambar

"Pra mostrar: não sou a única
Mas ainda derramo o amor
Pelas paredes pelas janelas
Pelo chão"

1/2

Por hora não creio na felicidade a dois seja possível.
Somos um único universo particular em expansão.

E lá vai ela se jogar completamente outra vez. (ou não)
Há uma nata espessa de saudade.
"As vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido"

(fernando pessoa)

Eis tudo.

"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

(fernando pessoa)
"Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."

(fernando pessoa)

almas livres

"O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre é mesmo estar morto".

(Carlos Drummond de Andrade)
"Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer (...)"

(Thiago de Mello)
é burrice chorar ate dar do vendo filme?
A morte nunca esteve passeando tão por perto.

Kaos

"(...) Zaratustra falava assim ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros”



"Onde está você que não vem?
Onde está você que não tem?
Será que se escondeu atrás de uma nuvem?
Hein, Hein, Hein?".

(Jorge Mautner)




a esperança pesa.

Ex-Drummer (2007)

“Tenho que dizer, eu posso com muitos sentimentos por vez.
Posso estar completamente feliz e dolorido ao mesmo tempo.

As dúvidas da vida me consomem, e não me preocupa a morte.

Essa combinação é possível se seu espírito é forte, se é grande. Ou seja, para alguém que quer lutar até o final e é tão cinico como o rei de Sião. Alguém como eu. Sou assim, tenho essas dúvidas e sentimentos que mudam.
Fui tão a fundo a ponto de dizer que esses sentimentos dirigem meu trabalho.

A parte disso, tropeço como todos.

Procuro ver para que lado sopra o vento e assegurando-me em não tornar-me louco.

Isso é tudo.”
Já não sei se é sentimento ou álcool.

embriagai-vos

"É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha."

(Baudelaire)
- Sonhei com você.
- Eu também.
- ...
- Não que eu queira ser mística ou pagar de guru, mas tenho tanto a impressão de que foi como uma viagem astral, porque eu sei que era real, assim como eu sei que as suas vontades contidas também são reais.
- Sabe, tenho estudado bastante, e não me surpreenderia se tivéssemos tendo uma experiência maior. Quando eu to com você é um encontro de almas.
- Há algo acontecendo. Nunca vou esquecer de como nossos olhos se cruzaram naquela mesa de bar. Há algo maior.
- "Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia."
"Antes acompanhado do que mau só."

(Matheus Ferreira)


Para os que virão.

"Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero se
r.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando."

(Thiago de Mello)
Não há ciúme pois não há possessão.

Me calo.

E o que diria agora? O silêncio parece às vezes bem mais sabio. Guardo agora o momento em que as coisas são me ditas, a sabedoria de cada um que me completa. Sou um ser atônito em construção, e quando confusa saio para dançar valsa com meu eu.
Me construo e me limito em cada conversa - por mais que a liberdade não tenha limites - estou em construção do meu eu. Não sei o que serei, nem me serás, mas o caminho parece certo e azul. Sinto o cheiro do azul e tenho sido eu mais do que nunca, tenho me construído completa, fazendo eu mesma parte do que serei.

o que sou não tem medida.
sou um sujeito desacontecido.
Por puro pudor sou impuro.

pequenas verdades

Como sei pouco e sou pouco
faço o pouco que me cabe
me dando 'inteira'

(Thiago de Mello)
a objetividade da fotografia é uma falácia.
erram os que acham que ela retrata o real.
o que há é que quando o fotógrafo diz:
- olha o passarinho!
uma ave de asas oblongas sai de dentro da câmera
com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
e pousa sobre seu ombro esquerdo.
de lá, pinta a cena.
em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.

Chacal

Easy Rider

about me:

- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende.

(Clarice Lispector)
"Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,(...)"
pirninhas tortas e olho em forma de gaivota.

Ressureições

"Você foi pela estrada assim
Como quem não vai voltar
Quem fica é quem chora
Até se acabar
Minhas lágrimas se acabaram
Mas não a vontade de chorar
Te amei no dia em que te vi
Domando um bando de leões
Domando aquelas feras, conquistando os corações
Dizendo que o amor nunca morre porque tem ressurreições
Sete mil quartos secretos guardam um segredo
Só o amor, só o amor pode matar o medo"

(Jorge Mautner)
nada nada nada é por acaso


"Eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão"

pequenas mentiras

as vezes eu tenho uma vontadezinha de morrer.
a gente é melhor quando está morto.
"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz."

Estou cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
Eu sou um mosntro ou isso é ser uma pessoa?
Sou uma destruidora de corações.