"Este é o trigésimo dia. O ciclo está completo e não encontrei o Leopardo dos Mares. Já não sei ao certo se alguém me contou, se leram nas cartas, nas runas, mas estava certo de que ele estaria aqui e só por isso vim. Procurei-o no porto, nos cafés, na praia, pelas esquinas e barcos. Olhei tudo e todos muito atentamente. Sei que o identificaria por aquela tatuagem no braço esquerdo - um leopardo dourado saltando sobre sete ondas verdes espumantes. E mesmo que fizesse frio e eu não pudesse ver seus braços, reconheceria de longe seus olhos de jade. E, se usasse óculos escuros, eu assobiaria aquela canção até que me escutasse. Sem ele, não vejo sentido em continuar nesta cidade. Que todos me perdoem, mas escrever agora é recolher vestígios do impossível. Para encontrá-lo, e isso é tudo o que me importa, eu parto."

veio caio fernando vomitar em mim a verdade sentida.
ando sentindo mesmo
é uma puta duma saudade

acordei de sonhos intranquilos.

sonhei sonhos intranquilos. um novo motivo, um nome, uma desconectar de almas, uma pontada no peito. acordei. e assim que acordei o telefone tocou, eu acabara de ter um sonho premonitorio e já sabia. encontramos. e tudo o que eu havia sonhado era de fato real. um motivo, juliana da joalheria, moça bonita de cabelos curtos, beijava bem. então um pedido de apagarmos os planos que fizéramos de um dia dois virar um e virar três. o detalhe de ja ter sonhado e já saber o que me esperava não fez soar menos estranho, mas sabia debilmente como agir. o fato é que acordei de novo. um sonho dentro de outro. e agora não tive telefonena, nem mensagem, nem sinal de fumaça para me mostrar essa tal juliana da joalheria, roubando meu conto de fadas. talvez o motivo seja outro. talvez seja só sonho.

acordei de sonhos intranquilos.
intranquila.






como diria Ginsberg: me apaixonei por Kerouac.

Pé na estrada

"Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro a gente está sempre confinada, e como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance. Já na motocicleta, não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica mais só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns quinze centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo"

(Robert Pirsig - Zen e a arte da manutenção de motocicletas)
meu próprio pai era um beatnik!
e ser apenas um borrão
liberdade e solidão andam de mãos dadas.














não ha porto seguro

a vontade era de afogar em minhas cobertas, permanecer no meu casulo até que a transformação se complete. hibernar até que o tempo ruim passe. mas humana que sou essas alternativas não se encaixam. resta levantar com os olhos apertados. e encarar, mesmo que sem vontade os dias que gritam sua loucura. o nó, a angustia e a amargura que sinto no peito me livrar num vomito. algo incomoda mais do que ontem, menos do que amanhã. me afoguei em mar aberto.


i love you badly
so much has gone and little is new
we planted seeds of rebirth

and i want to believe
and you want to believe
and we want to believe
a falta se fazendo mais presente
suas putas, suas raparigas, suas vadias
seu amor sem dono, sem destino.
suas transas, suas punhetas, o sexo
seu amor a todas, sem dono.

bichinho

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

(maiakoviski)
a vontade de gritar persiste
gritar, gritar, gritar

o amor e a falta que sinto.
um vazio inteiro dentro
falta de amanhecer no olho do outro

(dentre outras tantas faltas)
"Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero..."

Fernando Pessoa para falar agora

26. "dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma"
233. "... a tristeza solene que habita em todas as coisas grandes -"
126. "conforme a sorte manda e o acaso faz"
46. "no desalinho triste das minhas emoções confusas"
372. "absurdemos a vida, de leste a oeste"
28. "um halito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar"

farois altos e baixam
que me fotografam
a me procurar

em todos os peugeots
uma placa que não encontro

angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia angustia








lá vai o cão arrependido
com suas orelhas baixas
o osso roído
e o rabo entre as patas

e o verso é repetido 42 vezes
nada do que disse vai ser o certo.
pois sou uma pessoa errada.
um tango argentino.
não sou mais o seu bichinho
não é mais o meu amor


"meu pássaro se enjaulado
morreria indomável
pois nasceu assim, meu pássaro amado,
sabendo que voam todos os pássaros"

(Jéssica Vieira)

le temps destruit tout

tem o tempo que cura
e o tempo que destrói.
um diário adolescente. talvez porque não passe mais do isso. na efervescência da minha imaturidade. mas nada pode ser exigido. cada coisa a seu tempo e eu respeito o meu. por mais que aflija, por mais que doa, por mais que me angustie não ser a mulher que esperam que eu seja. sou menina. tentando viver uma vida de mulher que não se encaixa. feito banana no saco, obrigada a amadurecer antes do tempo. e de tempos em tempos minha imaturidade vem a prova, e a dor do parto de partir raízes. não passo de uma adolescente. tentando viver uma vida de mulher. uma maturidade que ainda não tenho para dar leveza às dores. vomito minhas estrofes de mil versos. vômito. de dentro, de coisa pobre, do que não faz bem, de coisa errada. aqui assumo a meu medo, o meu fraquejo. o olhar assustando de quem vive uma vida que não é sua. de quem vive um tempo que não é seu. enquanto tento ser a mulher que quero ter orgulho vomito as crises adolescentes que ainda me ferem. tudo para manter o equilíbrio. vomito aqui sozinha. e nesses momentos é o que mais espero, ser sozinha. para que não vejam, não notem, não enojem, a criança assustada no escuro que sou.

preciso parir minhas dores.

noto: lido mais do que gostaria com partos.

às vezes

tenho vergonha
da pessoa que sou.

bella

três dias seguidos sonhando algo relacionado/com você
e estupidamente ainda não entendi.

sei que ontem tinha você ali.

tira-se búzios e tarô

vou engolir esse mapa astral
e fazer meu próprio caminho

03/10 - 19/10

vou fazer amaração para o amor

meus dias são feitos
de inumeros
dias d
tudo que faz chorar
d e a l g u m a m a n e i r a
dói
(ainda estou em trabalho de parto de minhas dores.
a procura da cesária emergencial)
com lentes
binóculos
óculos
procuro ver
o que com dificuldade
quero enchergar

com a ponta dos dedos
apalpar a dúvida que surge

azul de calmaria
de límpido
de dúvida

reacender a dor
que agora pode ser alívio

na ponta dos dedos
fazer a conta dos dias

que não foi
que me alivia
que mata em um só golpe
o fantasma do monstro
que me assombrou

agora assombra apenas a dúvida

da conta dos dias que não sei ao certo
se foram ou não foram ou serão

para a paternidade de um outro alguém

(palavras que só eu entendo, porque são de dentro de mim, como vômito.)
não está certo. nunca estaria. o que antes por mais absurdo que fosse fazia sentido. agora a dúvida regurgita e não há mais ordem nenhuma. (se ha um deus que rege por nós ele curte uma pegadinha). mortes, nascimento, dores. cada um na sua medida - desmedida. o que no depois de amanhã será dessa situação toda. as frequencias estão se movendo cada hora em um ritmo. louco. sério. caótico. organizado. deve haver a chave certa. em tempos como esse se acredita em tudo e se vira niilista. no mesmo espaço in loco do peito. de cristão à ateu, tudo faz sentido. lagos de nós mesmos. cabe espaço até para misticismo. o tarot também tem a sua verdade. e eu a minha mentira. realidade que não cabe em mim. então explodo explodo explodo em mil partículas de pó.

feito reveillon.
não poderia dizer que sou eu. não cabo no meu ventre embora queira. refúgio do que penso que sou. olho no espelho e essa não sou eu, é a imagem do que me fizeram, é o que imagino que sou. e sou uma para cada um que me conhece - palavras repetidas. nada é mais que repetição. leio caio, kerouac, bukowisky, milton, blake, clarice, fernando. tudo já foi dito antes, em maior maestria por eles. estou entre aquilo que me fizeram e o que eu supostamente queria ser. não sou eu quem me fito no espelho, é alguma outra parte de mim que desconheço. não sei dos meus gestos, nem mesmo da minha voz. não sei de mim. sou tantas para cada sentimento que me cabe. parir o ventre vazio do que sou. sou os rabiscos que desenho sem forma, as letras que escrevo sem pudor, a roupa jogada no quarto, a poeira escondida no canto que não varro, a lista de coisas que deixei por vazer e várias outras que fiz de última hora sem o devido capricho. um dia, quem sabe, dou de cara comigo e me reconheço. esquina por esquina, passo por passo, palavra por palavra, silêncio por silêncio. movida pela música que insistentemente toca em minha cabeça. salvem bowie. 'just rebember, lovers never lose'. o tempo corre, e não pude ainda tomar nota de mim. corro também, movida por uma pressa que vem de não sei onde. uma confusão. não tive tempo para mim. não pus minhas idéias em ordem - se é que ha alguma ordem. "o que quero dizer, mas o senhor não comprendem, é que não tenho culpa nenhuma".

vomito palavras de terceira.

Pós-operatório

Agulha no peito. Feito um tipo de cirurgia que me submeteram sem minha permissão. Um transplante de alma, de coração, um retirar de glândula pineal. Facada no peito. Bisturi a cortar fundo quem um dia eu fui - ou tentei ser. Quando aplicarão a anestesia? Quando em fim ficarei de repouso absoluto? Dizem que o pior é o pós-operatório, é quando realmente se sente as dores. Esse pós-operatório ta demorado pra cacete. Talvez seja um câncer, uma leucemia, sem cura definida. Talvez seja necessário a fé da melhora para que se melhore. Agulha e linha para costurar o estrago. Arrancaram de mim a minha inocência, e doeu fundo. Sem inocência a gente envelhece rápido demais. Sem inocência a infância perde seu brilho, vira infantilidade. Arracaram-me talvez o útero. A possibilidade de coração bater no ventre. Não teria mais motivo. Solidão a parte de quem sou. Fizeram cesárea, e em vez de um novo fruto, pariram-me a paz, quietação. Ai ficou esse nó na garganta, esse aperto no peito, esse ciclo menstrual de quem não tem gestação, tem apenas a tpm da dor de si mesma. A tpm da dor do parto realizado. Insconstância. Talvez esse deveria ser meu nome. Sinto as contrações, mas essas não são intra-uterinas. Contrai-se algo forte no peito. Me pergunto como não faleci na mesa de cirurgia. A tendência do pós-operatório é a melhora, mas tenho medo da infecção hospitalar, causada pela cicatrização mal feita. Qual o melhor remédio para acelerar cicatrização? Vão para a puta que pariu com o tempo. A resposta das coisas não é o tempo, é o amor. Não é o tempo que cura. O tempo também envelhece e mata. Corrói devagar e profundamente cada veia de angustia. Grito silenciosamente as minhas dores do parto mal feito, não há ninguém na sala de cirurgia para me dar a mão. Nunca houve, nunca haverá. Nascemos sozinhos, morreremos sozinhos. E de nossas dores, alegrias e experiência, do nosso pós operatório só nós sabemos. Quais são as delícias da cirurgia? A espera que depois, depois de tudo seja bem melhor. Ou a espera de que continuemos, mesmo que debilmente. Quando saber se é melhor a cirurgia ou o cessar rápido do sofrimento definitivo? E se ao invés de arrancarem na cesárea o fruto que não tenho amputaram-me a perna? Erros médicos acontecem. Permaneceria assim com o tumor que carrego e ainda a falta do membro que me era necessário. Que se foda, não tenho vocação para Polianna. To mais para Byron, ou um Baudelaire qualquer. Clarice me entenderia, Caio me abraçaria. Será que Xavier me curaria? Ou João Paulo, agora que é santo e realiza milagres? Talvez erraram o tipo de cirurgia, o parto poderia ser normal, com pós-operatório bem mais rápido e tranquilo, e a felicidade da nova vida. Mas roubaram-me o fruto advindo. Não me apresentaram a nova vida. Ou perdi a visão na hora do parto, o tato, a audição, e ainda não fui capaz de perceber a nova vida que veio. E nova vida é sempre sinal de bonança, alegria, paz. Certo?
"E até para morrer você tem que existir"

- você sabe viver - ela disse e sorriu.
melancolia traspassada em seu olhar, pois ela bem sabia, não sabia viver, sabia morrer e ia morrendo demoradamente nos outros, uma morte em cada esquina, um novo ser em cada encontro. morte e renascimento em cada suspiro. bella diria toda noite a gente morre, todo dia a gente renasce.
vou escrever, para provar que sou sublime.
às vezes sinto o perto
l o n g e

010111


agora percebo
nada mudou pois ainda
também sou a mesma
mas agora com alguns
lapsos de futuro.

e isso assusta
desespera:

ter futuro.

"a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões"

"sou "eu" que não coincido jamais com a minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apóia nela), e sou "eu" que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco: ah, se ao menos a Fotografia pudesse me dar um corpo neutro, anatômico, um corpo que nada signifique!"



é estranho. estar com você.
querer você.
e logo após desejar estar completamente sozinho

sumir do mundo que me conhece.


esperando que sintam saudade.

amor

Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. muito leve, leve pousa. na simples e suave coisa suave coisa nenhuma. sombra, silêncio ou espuma. nuvem azul que arrefece. que em me amadurece
sonhei que estávamos juntos
de novo e de novo e de novo
não me importava mais com ações
que sei que me machucariam
e estavamos de novo sendo um
no abraço tão abertado
na vontade tão sincera
que marcamos nosso casamento
para breve
para o começo do ano
o meu casamento com a única pessoa que já pensei ser possível.

dizem que sonhar com casamento é anuncio de morte.

aguardo.
o tempo é contato em cigarros.
acalme-se pequena,
cometa a overdose de si mesma.

o fim prematuro ou previsto
do que sempre foi apenas nessa minha vida pensada
agora era a hora de ser niilista
mas sigo acreditando
e agora, acreditar dói, pois é tardio
sou só. sou só de ti e sempre o soube
mas, infantilmente, tentei viver uma vida que não era minha
há alguma semelhança
(espero que a passagem prematura
seja a mais forte delas)
a visão molhada não se afoga agora
agora que me encontro no sossego de mim mesma
a certeza que sempre tive me foge
o niilismo que sempre carreguei
da lugar a uma crença destrutiva
atravesso sem olhar para os lados
ando sem cuidado
não haverá mais geléias, jornais ou palavras ao pé do ouvido
não haverá o que nunca de fato existiu
essa vida que não era minha e eu vivia
o que sempre ha é essa maldita esperança
a pesar o peito e a alma
e encharcar os sentidos e inundar
o que, com dor, tento ser
estou só, sou só
e sentindo ainda mais mais só
estando só de ti.

só.
o gosto do escondido
na boca da manhã.