com fotografias consolo a saudade do rapaz que fui, embora saiba que há muito se apagaram os sorrisos do teu rosto. envelhecemos separados, o eu das fotografias e o eu daquele que neste momento escreve. envelhecemos irremediavelmente, tenho pena, mas é tarde e estou cansado para as alegrias dum reencontro. não acredito na reconciliação, ainda menos no regresso ao sorriso que tenho nas fotografias. não estou aqui, nunca estive nelas. quase nada sei de mim. (al berto)
não sei nada
Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como não sei. (ruy belo)
aos amigos
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder
amor como em casa
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no
amor como em casa.
(manuel pina)
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
(albano martins)
Eclesiastes
Tempo de foder
tempo de não foder
saber gerir
os tempos
compor
saber estar sozinha
para saber estar contigo
e vice-versa
aqui estão as minhas contas
do que foi
(Adília Lopes)
"And Jack is lovely
but quite mad which one just has to accept since there’s no hope that he’ll
ever be otherwise so I really don’t know what’s going to happen, don’t even
know what I’d want if I had to make my mind up. Part of me feels like running
off to Europe or someplace anyway! Meanwhile I
guess I’m “going steady” in a sort of nervous, unspoken arrangement that goes
on and on with no particular end in sight – if you know what I mean." (Joyce Johnson - Doors Wide Open: a beat love affair in letters, 2001:131)
"Há algo de triste e desconcertante acerca da eterna estabilidade da mobília e dos objetos quando as pessoas se vão. Elise, especialmente, que provavelmente não verei novamente por anos – Eu estou me sentindo como se alguém tivesse pegado um pincel e desenhado uma linha negra através da vida. Ela estava sentada no sofá lendo suas antigas correspondências e papéis e jogando as coisas fora e colocando coisas de lado e então eu percebi que nós duas havíamos crescido, o que era lindo e terrível ao mesmo tempo. É engraçado, mas depois de tanto anos que nos conhecemos, este verão nós realmente começamos a nos conhecer de verdade – com inúmeras imagens que jogamos fora por fim. Eu jamais poderia escrever aquele poema que escrevi sobre ela agora. Estou imensamente feliz por ela – ela ama e é amada e tudo está florescendo para ela; ela colocou de lado todos os seus vestidos pretos e veste laranja agora."
(Joyce Johnson - Door Wide Open: a beat love affair in letters. Tradução minha.)
5./
reconheceram-se. beberam cerveja com a sede de antigos amates, fumaram ganzas para suportar o tédio da noite em Lisboa. segredaram-se tudo o que lhes acontecera desde o dia em que haviam partilhado a mesma cama.
-os olhos ainda vêem o que não morreu em nós.
-a vida deu mil voltas à nossa volta!
-não esperava encontrar-te por aqui.
-trabalho no circo,faço o número do homem-aranha.
-eras chavalito quando nos engatámos.
-e tu levaste-me contigo...fugimos, lembras-te?
separaram-se de novo ao amanhecer. um em direção da imensidade da cidade, e o outro de circo em circo, pelas datas dos santos e das promessas.
(O Medo. Al Berto, 1987:177)
reconheceram-se. beberam cerveja com a sede de antigos amates, fumaram ganzas para suportar o tédio da noite em Lisboa. segredaram-se tudo o que lhes acontecera desde o dia em que haviam partilhado a mesma cama.
-os olhos ainda vêem o que não morreu em nós.
-a vida deu mil voltas à nossa volta!
-não esperava encontrar-te por aqui.
-trabalho no circo,faço o número do homem-aranha.
-eras chavalito quando nos engatámos.
-e tu levaste-me contigo...fugimos, lembras-te?
separaram-se de novo ao amanhecer. um em direção da imensidade da cidade, e o outro de circo em circo, pelas datas dos santos e das promessas.
(O Medo. Al Berto, 1987:177)
ella
The swee sweet life
Se a falta dói tanto em mim
imagine nessas outras tantas pessoas
o dedo sem esmalte
a boca de peixe
a transmutação confusa dos cabelos
o sorriso escondido
quero a sabedoria dos pássaros e das árvore
lidar com minha anatomia
que é toda coração.
(em 3/5/2010)
convivi muito mais com sua ausência do que sua presença. senti mais a falta de você no quarto, na sala, no olhar das pessoas que me cercavam. às vezes a sua presença, na praça, na faculdade. aulas, corredores. a matéria que você passou sem nem mesmo ter feito prova. os risos contidos, tampados com a doçura da mão. o chinelo havaiana. a bolsa de televisão. ou forno? os dedos do pé com esmalte vermelho. o cabelo vermelho. preto. loiro. cervejas divididas. algumas tardes. alguns papos na sala da casa de um amigo. a primeira vez que ouvi falar de fisheye, foi culpa sua. e quando iniciei minha inocente paixão por fotografia, você pegou minha máquina e deu uns cliques. mas mesmo assim fui marcada pela sua ausência. convivi muito mais com ella. com o quarto o vazio. com o silêncio. com o soluço do irmão que não se continha. porque não continha você. e assim fui vivendo sua ausência, vivendo ella no olhar sentido do outro, no desabafo, no nome não dito. porque era sagrado. como o nome dos deuses que evitamos dizer com medo de incomodá-los no seu douto descanso sábio. evito o nome como algo sagrado. e assim continuo na ausência. na ausência do nome, de você. ausência que só por ser ausência me fez presente no que nunca poderia vivenciar de outra forma. e uma tristeza indômita de sentir muito mais a sua ausência do que a presença em palavras poucas. com todo o carinho, mas poucas. aqui, acolá. a ausência também modifica. e consolidou quem hoje, presente, sou. fiquei no que nunca foi mas poderia ter sido. e não é. eis tudo. mas fiquei também com o presente que só a sua ausência poderia me dar. egoísmo sim. e por egoísta, meu. a sua ausência, a sua falta pelo corredor, pelas roupas sem utilidade no armário. pelos livros sem olhos atentos a folhear, sua falta me construiu. mas eu trocava o que sou agora pela alegria que vi faltar nos olhos dos outros. na outra que para mim ficou sendo metade sua. olhos que ainda continham brilho, mas por muito tempo sem vontade de brilhar. porque você é luz. que guia, ilumina. e da qual a ausência se faz sentida. convivi muito mas com sua ausência. passei seus aniversários sem você. mas de uma forma estranha, com mais consciência de mim. vivi você nos olhos e nas paixões dos outros. vivi você nos trejeitos daqueles que amou. e amei também. e aqui, a nossa partilha secreta, amar o mesmo homem como referencial. embora de pontos diferentes. e aqui, uma partilha minha: amei você. sua presença que só senti com a sua ausência. ausência essa minha, de egoísta que sou.
"A mulher que Jan tanto amou tinha razão em dizer que o que a mantinha presa à vida era apenas um fio de teia de aranha. Basta tão pouco, uma ínfima corrente de ar para que as coisas se movam imperceptivelmente, e aquilo por que ainda teríamos dado a vida um segundo antes de repente pareça um contra-senso no qual não há nada." (O Livro do Riso e do Esquecimento - Milan Kundera)
eu entendi.
"except that forgiveness is hardly the word. Understanding, yes. But if you understand something, you don't forvige it, you are the thing itself: forgiveness is for what you don't understand" (Doris Lessing - To Room Nineteen)
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
cesariny
"18 de janeiro
não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias, ninguém precisa de saber onde me encontro, se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.
um pássaro, dois homens puxando redes.
até quando poderei suportar a minha própria ausência?
e a vertigem?
o mar é um jardim que me afasta, de momento, de qualquer morte. continuar ausente é com certeza a melhor maneira de estar vivo, atento aos estremecimentos do mundo.
sentado ao fundo dum espelho tomo a realidade por reflexo, escuto as estrelas, sou espectador das marés, do vento, da chuva, não tenho intenção de inventar um novo rosto para o corpo que perdi."
(O medo - Al Berto)
a casa está repleta de gemidos e anoitece. assim como tenho anoitecido a vida. sorrateira pelos cômodos me escondo. tudo cresce a seu tempo. e o tempo paira fora de seu tempo. feito fantasma. a dor de agora era a dor de outrora que insistemente volta a bater à porta para relembrar que estamos vivos. que vivemos. que pulsamos. morremos. renascemos. palpita o que quero esquecer. mas que demoradamente existe. e sou eu. a ferida em carne viva que se nega a cicatrizar. i still love him tonight.
I had already that feeling too...
" I remember the
first party we went to last Fall. You said, “Protect me”, and I wanted to with
all my heart, but didn’t do a very good job, having all my own old shynesses and
especially my strange shyness of you – it was always like maybe you were going
off in a taxi any minute and I’d never see you again, and had we ever known each
other after all?..." (Joyce Johnson - Door Wide Open, pag.158)
so true,
this feeling 'bout me and you.
so true,
this feeling 'bout me and you.
(a propósito dos dois risos)
"Conceber o diabo como partidário do Mal e o anjo como um combatente do Bem é aceitar a demagogia dos anjos. As coisas são, evidentemente, mais complicadas.
Os anjos são partidários, não do Bem, mas da criação divina. O diabo, ao contrário, é aquele que recusa ao mundo divino um sentido racional.
O domínio do mundo, como se sabe, é dividido entre anjos e demônios. Contudo, o bem do mundo não implica que os anjos levem vantagem sobre os demônios (como eu pensava quando era criança), e sim que o poder de uns e de outros seja mais ou menos equilibrado. Se existe no mundo muito sentido indiscutível (o poder dos anjos), o homem sucumbe sob o seu peso. Se o mundo perde todo o sentido (o reino dos demônios), também não se pode viver.
As coisas, se provadas subitamente de seu suposto sentido, do lugar que lhes é destinado na ordem esperada das coisas (um marxista formado em Moscou acreditar em horóscopo), provocam em nós o riso. Em sua origem, o riso pertence portanto ao domínio do diabo. Existe alguma coisa de mau (as coisas de repente se revelam diferentes daquilo que pareciam ser), mas existe nele também uma parte de alívio salutar (as coisas são mais leves do que pareciam, elas nos deixam viver mais livremente, deixam de nos oprimir sob sua austera seriedade).
Quando ouviu pela primeira vez o riso do demônio, o anjo foi tomado de estupor. Isso se passou num festim, a sala estava cheia de gente e as pessoas foram dominadas umas após as outras pelo riso do diabo, que é horrivelmente contagiante. O anjo compreendeu claramente que esse riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade de sua obra. Sabia que tinha de reagir rapidamente, de uma maneira ou de outra, mas sentia-se fraco e sem defesa. Não conseguindo inventar nada, imitou seu adversário. Abrindo a boca, emitiu sons entrecortados, descontínuos, em intervalos acima de seu registro vocal (era mais ou menos o mesmo som que Michèle e Gabrielle faziam numa rua de uma cidade da costa mediterrânea), mas dando-lhe um sentido oposto: Se o riso do diabo mostrava o absurdo das coisas, o do anjo, ao contrário, queria alegrar-se por tudo aqui embaixo ser bem ordenado, sabiamente concebido, bom e cheio de sentido.
Assim, o anjo e o diabo se enfrentavam e, mostrando a boca aberta, emitiam mais ou menos os mesmos sons, mas cada um expressava, com seu ruído, coisas absolutamente opostas. E o diabo olhava o anjo rir, e ria cada vez mais, cada vez melhor e cada vez mais francamente, porque o anjo rindo era infinitamente cômico.
Um riso ridículo é um desastre. No entanto, os anjos ainda assim obtiveram um resultado. Eles nos enganaram com uma impostura semântica. Para designar sua imitação do riso e o riso original (0 do diabo), existe apenas uma palavra. Hoje em dia nem nos damos conta de que a mesma manifestação exterior encobre duas atitudes interiores absolutamente opostas. Existem dois risos e não temos uma palavra para distingui-los" (O Livro do Riso e Do Esquecimento - Milan Kundera)
fim de um ciclo. sai em 13 de outubro. retorno agora. tudo o que vi e vivi em tantos lugares. tudo o que pensei. o que concluí. a praia de paracas. a praia de mancora. a praia de cartagena. as grandes edificações de mim mesma. para me colocar agora bem longe do mar. mas no meu porto. fim do ciclo. é hora de voltar a ter responsabilidades. é hora de escutar as palavras do taita mutumbahoy. para que nenhum homem me fira novamente com palavras.
"compreendia que o que dava a suas lembranças escritas sentido e valor era elas serem destinadas apenas a ela. no momento em que perdessem essa qualidade, o elo íntimo que a unia a elas seria rompido, e ela não poderia mais lê-las com seus próprios olhos, mas somente com os olhos do público que toma conhecimento de um documento sobre outra pessoa. então, mesmo aquela que as escrevera se tornaria outra, uma estranha. a semelhança acentuada que, apesar de tudo, subsistiria entre ela e a autora dos diários lhe daria a impressão de uma paródia, de uma zombaria. não, ela não poderia nunca mais ler seus diários se fossem lidos por olhos estranhos." (milan kundera)
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