Ela não sabe sambar
"Pra mostrar: não sou a única
Mas ainda derramo o amor
Pelas paredes pelas janelas
Pelo chão"
Mas ainda derramo o amor
Pelas paredes pelas janelas
Pelo chão"
Eis tudo.
"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
(fernando pessoa)
"Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."
(fernando pessoa)
almas livres
"O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre é mesmo estar morto".
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre é mesmo estar morto".
(Carlos Drummond de Andrade)
Ex-Drummer (2007)
“Tenho que dizer, eu posso com muitos sentimentos por vez.
Posso estar completamente feliz e dolorido ao mesmo tempo.
As dúvidas da vida me consomem, e não me preocupa a morte.
Essa combinação é possível se seu espírito é forte, se é grande. Ou seja, para alguém que quer lutar até o final e é tão cinico como o rei de Sião. Alguém como eu. Sou assim, tenho essas dúvidas e sentimentos que mudam.
Fui tão a fundo a ponto de dizer que esses sentimentos dirigem meu trabalho.
A parte disso, tropeço como todos.
Procuro ver para que lado sopra o vento e assegurando-me em não tornar-me louco.
Isso é tudo.”
embriagai-vos
"É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha."
(Baudelaire)
- Sonhei com você.
- Eu também.
- ...
- Não que eu queira ser mística ou pagar de guru, mas tenho tanto a impressão de que foi como uma viagem astral, porque eu sei que era real, assim como eu sei que as suas vontades contidas também são reais.
- Sabe, tenho estudado bastante, e não me surpreenderia se tivéssemos tendo uma experiência maior. Quando eu to com você é um encontro de almas.
- Há algo acontecendo. Nunca vou esquecer de como nossos olhos se cruzaram naquela mesa de bar. Há algo maior.
- "Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia."
Para os que virão.
"Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando."
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando."
(Thiago de Mello)
Me calo.
E o que diria agora? O silêncio parece às vezes bem mais sabio. Guardo agora o momento em que as coisas são me ditas, a sabedoria de cada um que me completa. Sou um ser atônito em construção, e quando confusa saio para dançar valsa com meu eu.
Me construo e me limito em cada conversa - por mais que a liberdade não tenha limites - estou em construção do meu eu. Não sei o que serei, nem me serás, mas o caminho parece certo e azul. Sinto o cheiro do azul e tenho sido eu mais do que nunca, tenho me construído completa, fazendo eu mesma parte do que serei.
o que sou não tem medida.
pequenas verdades
Como sei pouco e sou pouco
faço o pouco que me cabe
me dando 'inteira'
(Thiago de Mello)
a objetividade da fotografia é uma falácia.
erram os que acham que ela retrata o real.
o que há é que quando o fotógrafo diz:
- olha o passarinho!
uma ave de asas oblongas sai de dentro da câmera
com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
e pousa sobre seu ombro esquerdo.
de lá, pinta a cena.
em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.
erram os que acham que ela retrata o real.
o que há é que quando o fotógrafo diz:
- olha o passarinho!
uma ave de asas oblongas sai de dentro da câmera
com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
e pousa sobre seu ombro esquerdo.
de lá, pinta a cena.
em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.
Chacal
Ressureições
"Você foi pela estrada assim
Como quem não vai voltar
Quem fica é quem chora
Até se acabar
Minhas lágrimas se acabaram
Mas não a vontade de chorar
Te amei no dia em que te vi
Domando um bando de leões
Domando aquelas feras, conquistando os corações
Dizendo que o amor nunca morre porque tem ressurreições
Sete mil quartos secretos guardam um segredo
Só o amor, só o amor pode matar o medo"
Como quem não vai voltar
Quem fica é quem chora
Até se acabar
Minhas lágrimas se acabaram
Mas não a vontade de chorar
Te amei no dia em que te vi
Domando um bando de leões
Domando aquelas feras, conquistando os corações
Dizendo que o amor nunca morre porque tem ressurreições
Sete mil quartos secretos guardam um segredo
Só o amor, só o amor pode matar o medo"
(Jorge Mautner)
Estou cansado
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
louca e livre
Conheci a chuva e a tempestade, e por muito tempo almejei descobrir quem seria o vento.
O vento que eu tanto queria e precisava, e um dia, assim, no susto ao dobrar uma esquima me deparei com a verdade: - Eu sou vento.
Desde então a chuva e a tempestade se completaram em mim de maneira extraordinária. A chuva era chuva porque eu era mais calma, a tempestade era tempestade porque eu estava em fúria.
A chuva adquiria a intensidade que quisesse, mas tomava o rumo que eu sobrava. A tempestade era forte porque eu também o era.
Hoje sou vento, e isso me basta.
Estou no ar, mudando as pessoas.
As pessoas estão ao me redor, me dando forma.
"Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre...
Eu estava com Deus!"
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre...
Eu estava com Deus!"
eu sinto tanto tanto tanto isso. sempre tem alguém a espreita.
sempre me sinto pesada na cama sem conseguir mexer, e o medo de abrir os olhos porque eu sei que tem alguém ali.
te mastigo dentro de mim
"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."
(Caio Fernando de Abreu)
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