le temps destruit tout

tem o tempo que cura
e o tempo que destrói.
um diário adolescente. talvez porque não passe mais do isso. na efervescência da minha imaturidade. mas nada pode ser exigido. cada coisa a seu tempo e eu respeito o meu. por mais que aflija, por mais que doa, por mais que me angustie não ser a mulher que esperam que eu seja. sou menina. tentando viver uma vida de mulher que não se encaixa. feito banana no saco, obrigada a amadurecer antes do tempo. e de tempos em tempos minha imaturidade vem a prova, e a dor do parto de partir raízes. não passo de uma adolescente. tentando viver uma vida de mulher. uma maturidade que ainda não tenho para dar leveza às dores. vomito minhas estrofes de mil versos. vômito. de dentro, de coisa pobre, do que não faz bem, de coisa errada. aqui assumo a meu medo, o meu fraquejo. o olhar assustando de quem vive uma vida que não é sua. de quem vive um tempo que não é seu. enquanto tento ser a mulher que quero ter orgulho vomito as crises adolescentes que ainda me ferem. tudo para manter o equilíbrio. vomito aqui sozinha. e nesses momentos é o que mais espero, ser sozinha. para que não vejam, não notem, não enojem, a criança assustada no escuro que sou.

preciso parir minhas dores.

noto: lido mais do que gostaria com partos.

às vezes

tenho vergonha
da pessoa que sou.

bella

três dias seguidos sonhando algo relacionado/com você
e estupidamente ainda não entendi.

sei que ontem tinha você ali.

tira-se búzios e tarô

vou engolir esse mapa astral
e fazer meu próprio caminho

03/10 - 19/10

vou fazer amaração para o amor

meus dias são feitos
de inumeros
dias d
tudo que faz chorar
d e a l g u m a m a n e i r a
dói
(ainda estou em trabalho de parto de minhas dores.
a procura da cesária emergencial)
com lentes
binóculos
óculos
procuro ver
o que com dificuldade
quero enchergar

com a ponta dos dedos
apalpar a dúvida que surge

azul de calmaria
de límpido
de dúvida

reacender a dor
que agora pode ser alívio

na ponta dos dedos
fazer a conta dos dias

que não foi
que me alivia
que mata em um só golpe
o fantasma do monstro
que me assombrou

agora assombra apenas a dúvida

da conta dos dias que não sei ao certo
se foram ou não foram ou serão

para a paternidade de um outro alguém

(palavras que só eu entendo, porque são de dentro de mim, como vômito.)
não está certo. nunca estaria. o que antes por mais absurdo que fosse fazia sentido. agora a dúvida regurgita e não há mais ordem nenhuma. (se ha um deus que rege por nós ele curte uma pegadinha). mortes, nascimento, dores. cada um na sua medida - desmedida. o que no depois de amanhã será dessa situação toda. as frequencias estão se movendo cada hora em um ritmo. louco. sério. caótico. organizado. deve haver a chave certa. em tempos como esse se acredita em tudo e se vira niilista. no mesmo espaço in loco do peito. de cristão à ateu, tudo faz sentido. lagos de nós mesmos. cabe espaço até para misticismo. o tarot também tem a sua verdade. e eu a minha mentira. realidade que não cabe em mim. então explodo explodo explodo em mil partículas de pó.

feito reveillon.
não poderia dizer que sou eu. não cabo no meu ventre embora queira. refúgio do que penso que sou. olho no espelho e essa não sou eu, é a imagem do que me fizeram, é o que imagino que sou. e sou uma para cada um que me conhece - palavras repetidas. nada é mais que repetição. leio caio, kerouac, bukowisky, milton, blake, clarice, fernando. tudo já foi dito antes, em maior maestria por eles. estou entre aquilo que me fizeram e o que eu supostamente queria ser. não sou eu quem me fito no espelho, é alguma outra parte de mim que desconheço. não sei dos meus gestos, nem mesmo da minha voz. não sei de mim. sou tantas para cada sentimento que me cabe. parir o ventre vazio do que sou. sou os rabiscos que desenho sem forma, as letras que escrevo sem pudor, a roupa jogada no quarto, a poeira escondida no canto que não varro, a lista de coisas que deixei por vazer e várias outras que fiz de última hora sem o devido capricho. um dia, quem sabe, dou de cara comigo e me reconheço. esquina por esquina, passo por passo, palavra por palavra, silêncio por silêncio. movida pela música que insistentemente toca em minha cabeça. salvem bowie. 'just rebember, lovers never lose'. o tempo corre, e não pude ainda tomar nota de mim. corro também, movida por uma pressa que vem de não sei onde. uma confusão. não tive tempo para mim. não pus minhas idéias em ordem - se é que ha alguma ordem. "o que quero dizer, mas o senhor não comprendem, é que não tenho culpa nenhuma".

vomito palavras de terceira.

Pós-operatório

Agulha no peito. Feito um tipo de cirurgia que me submeteram sem minha permissão. Um transplante de alma, de coração, um retirar de glândula pineal. Facada no peito. Bisturi a cortar fundo quem um dia eu fui - ou tentei ser. Quando aplicarão a anestesia? Quando em fim ficarei de repouso absoluto? Dizem que o pior é o pós-operatório, é quando realmente se sente as dores. Esse pós-operatório ta demorado pra cacete. Talvez seja um câncer, uma leucemia, sem cura definida. Talvez seja necessário a fé da melhora para que se melhore. Agulha e linha para costurar o estrago. Arrancaram de mim a minha inocência, e doeu fundo. Sem inocência a gente envelhece rápido demais. Sem inocência a infância perde seu brilho, vira infantilidade. Arracaram-me talvez o útero. A possibilidade de coração bater no ventre. Não teria mais motivo. Solidão a parte de quem sou. Fizeram cesárea, e em vez de um novo fruto, pariram-me a paz, quietação. Ai ficou esse nó na garganta, esse aperto no peito, esse ciclo menstrual de quem não tem gestação, tem apenas a tpm da dor de si mesma. A tpm da dor do parto realizado. Insconstância. Talvez esse deveria ser meu nome. Sinto as contrações, mas essas não são intra-uterinas. Contrai-se algo forte no peito. Me pergunto como não faleci na mesa de cirurgia. A tendência do pós-operatório é a melhora, mas tenho medo da infecção hospitalar, causada pela cicatrização mal feita. Qual o melhor remédio para acelerar cicatrização? Vão para a puta que pariu com o tempo. A resposta das coisas não é o tempo, é o amor. Não é o tempo que cura. O tempo também envelhece e mata. Corrói devagar e profundamente cada veia de angustia. Grito silenciosamente as minhas dores do parto mal feito, não há ninguém na sala de cirurgia para me dar a mão. Nunca houve, nunca haverá. Nascemos sozinhos, morreremos sozinhos. E de nossas dores, alegrias e experiência, do nosso pós operatório só nós sabemos. Quais são as delícias da cirurgia? A espera que depois, depois de tudo seja bem melhor. Ou a espera de que continuemos, mesmo que debilmente. Quando saber se é melhor a cirurgia ou o cessar rápido do sofrimento definitivo? E se ao invés de arrancarem na cesárea o fruto que não tenho amputaram-me a perna? Erros médicos acontecem. Permaneceria assim com o tumor que carrego e ainda a falta do membro que me era necessário. Que se foda, não tenho vocação para Polianna. To mais para Byron, ou um Baudelaire qualquer. Clarice me entenderia, Caio me abraçaria. Será que Xavier me curaria? Ou João Paulo, agora que é santo e realiza milagres? Talvez erraram o tipo de cirurgia, o parto poderia ser normal, com pós-operatório bem mais rápido e tranquilo, e a felicidade da nova vida. Mas roubaram-me o fruto advindo. Não me apresentaram a nova vida. Ou perdi a visão na hora do parto, o tato, a audição, e ainda não fui capaz de perceber a nova vida que veio. E nova vida é sempre sinal de bonança, alegria, paz. Certo?
"E até para morrer você tem que existir"

- você sabe viver - ela disse e sorriu.
melancolia traspassada em seu olhar, pois ela bem sabia, não sabia viver, sabia morrer e ia morrendo demoradamente nos outros, uma morte em cada esquina, um novo ser em cada encontro. morte e renascimento em cada suspiro. bella diria toda noite a gente morre, todo dia a gente renasce.
vou escrever, para provar que sou sublime.
às vezes sinto o perto
l o n g e

010111


agora percebo
nada mudou pois ainda
também sou a mesma
mas agora com alguns
lapsos de futuro.

e isso assusta
desespera:

ter futuro.

"a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões"

"sou "eu" que não coincido jamais com a minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apóia nela), e sou "eu" que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco: ah, se ao menos a Fotografia pudesse me dar um corpo neutro, anatômico, um corpo que nada signifique!"



é estranho. estar com você.
querer você.
e logo após desejar estar completamente sozinho

sumir do mundo que me conhece.


esperando que sintam saudade.

amor

Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa. muito leve, leve pousa. na simples e suave coisa suave coisa nenhuma. sombra, silêncio ou espuma. nuvem azul que arrefece. que em me amadurece
sonhei que estávamos juntos
de novo e de novo e de novo
não me importava mais com ações
que sei que me machucariam
e estavamos de novo sendo um
no abraço tão abertado
na vontade tão sincera
que marcamos nosso casamento
para breve
para o começo do ano
o meu casamento com a única pessoa que já pensei ser possível.

dizem que sonhar com casamento é anuncio de morte.

aguardo.
o tempo é contato em cigarros.
acalme-se pequena,
cometa a overdose de si mesma.

o fim prematuro ou previsto
do que sempre foi apenas nessa minha vida pensada
agora era a hora de ser niilista
mas sigo acreditando
e agora, acreditar dói, pois é tardio
sou só. sou só de ti e sempre o soube
mas, infantilmente, tentei viver uma vida que não era minha
há alguma semelhança
(espero que a passagem prematura
seja a mais forte delas)
a visão molhada não se afoga agora
agora que me encontro no sossego de mim mesma
a certeza que sempre tive me foge
o niilismo que sempre carreguei
da lugar a uma crença destrutiva
atravesso sem olhar para os lados
ando sem cuidado
não haverá mais geléias, jornais ou palavras ao pé do ouvido
não haverá o que nunca de fato existiu
essa vida que não era minha e eu vivia
o que sempre ha é essa maldita esperança
a pesar o peito e a alma
e encharcar os sentidos e inundar
o que, com dor, tento ser
estou só, sou só
e sentindo ainda mais mais só
estando só de ti.

só.
o gosto do escondido
na boca da manhã.
já não sei o que é ou o
que poderia ser
já não sei o rumo que tomo
ou as coisas de que diz da minha vida
estou perdida em alguma rua da
minha infância
entre a parte do que não sou e
do que tento ser
entre o que fui e os outros me fizeram
entre o que penso ser e sei que
definitivamente não sou
a morada que não me reside
o ventre sempre vazio da solidão
que sou

das verdades do agora

"Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornaram estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Eis por que a tristeza também passa: a novidade em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto. Nem está mais lá - já passou para o sangue. Não sabemos o que houve. Facilmente nos poderiam fazer crer que nada aconteceu; no entanto, ficamos transformados, como se transforma uma casa em que entra um hóspede. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que pe o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidenta, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e impertubável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quanto, num dia ulterior, vier a "acontecer" - isto é, quando sair de nós para se chegar a outros - . sentir-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso - e a nossa evikução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido 0 que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito. Já se modificaram muitas noções relativas ao movimento; há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Afigurou-se-lhes tão estanho que, em seu confuso espanto, julgavam-no saído delas justamente naquele momento, e juravam nunca antes ter encontrado em si algo parecido. Como os homens durante muito tempo de iludiram acerca do movimento do sol, assim se anganam ainda em relação ao movimento do que está para vir. O futuro está firme, cara sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.
Como, pois, não seria difícil a nossa sorte?"

Rainer Maria Rilke
em Cartas a um jovem Poeta
quero o sangue do filho que não veio.
o esmiuçar do ventre que não produz.
quero a dor do que não é
do que não muda
do que não transforma
quero a exatidão do meu corpo em todos os meses
quero o vazio do meu ventre
preenchido pela dor aguda do meu peito
quero a infância tardia que não virá nunca
quero a imaturidade dos meus gestos
e a responsabilidade em aceita-los
quero a idade não avançada
o cabelo branco que não virá
a dor que vem
com o filho que não vem
quero o vazio

já estou cheia de tudo.

e juntos,
acreditar outra vez.
então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
(maiakovski)

universo infinito

"E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de idéias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida como ela é e não forme idéias preconcebidas de espécie alguma em sua mente".

Jean-Louis Lebris de Kerouac

serendiptidade.

é confuso. estou perdendo a razão. é difícil distinguir o que é real do que não é. a realidade tem se apresentado cada vez mais ilusória e as dúvidas me consomem. não me preocupa a morte. partir parece cada vez mais fácil. não há barreiras entre o real e as outras esferas. me sinto flutuando em um lugar sem tempo nem espaço. o tempo também não parece real. me confunde. olhar de inseto a ver o mundo correr devagar, olhar de tartaruga a ver o mundo correr depressa. conheci pessoas a frente de seu tempo e me sinto cada vez mais atrasada. cada vez mais estou flutuando mais e mais pesadamente nesse vácuo de tempo, lugar e realidade. meus sonhos tem sido cada vez mais lúcidos, e minhas realidades cada vez mais ilusórias. já não sei distinguir vontades próprias dessa vontade de que tudo move. temos realmente que respeitar o fluxo? mas não tem sido fácil entendê-lo. não sei se fico ou se vou. não consigo mais ver os sinais, me perdi dentro da minha realidade. é confuso. tenho desenhado. nunca o fiz antes na vida. mas agora há a vontade e uma certa habilidade débil. há algo acontecendo e eu não posso supor o que é. algo grande e estou participando. sinto que é preciso correr atrás do tempo perdido e me preparar para o que está por vir. real ou não. experimentar. viver. acumular experiências. arriscar. a vontade de começar novos caminhos é cada vez mais forte. é confuso. tenho sido eu ou tenho sido o molde do que me fizeram? conheci pessoas a frente do seu tempo. parece não haver necessidade de não se preocupar com a realidade, por mais que doa. nada parece real. acho que não é. debilidade inútil de meus escritos. relações confusas e cheias de lacunas. somos seres solitários em expansão. não há nada além das nossas próprias vontades. o universo é esse que se passa dentro de minha vida pensada. o que resta? minha vida pensada não é real. então o que resta é essa não realidade das coisas. são as coisas como vejo, como desejo. e se desejar bem forte eu consigo. toda vida é sofrimento mas é possível alcançar a supressão do sofrimento. o budismo me ajuda. e quando me falta ainda há o niilismo ou outro filosofia qualquer. não há nada além da nossa própria mente. o que sou não tem medida. pois não se posse calcular o seu tamanho. fujo de mim mesma como quem foje da própria realidade. um dia eu me encontro.

is this real life?

dor de parto
do que ainda não sou
confusão linear do que
ainda não é
as janelas fechadas para a rua da minha infância
já não sei se lembro ou se invento
já não sei se sou ou imagino
ofusca-me a realidade dessa vida não vivida

vomito de mim

ela tem olhar de binóculo, eu tenho o olhar perdido.
envelheci 7 anos nas últimas 6 semanas.
um peso comprime no peito,
um nó se forma na garganta.
o peito,
lugar onde o coração está é onde parece mais doer.
o peso do fruto que não carrego no ventre comprime meu peito para que se deforme.
retire a forma de que já é.
diria que é preciso aprender tudo de novo.
aprender a amar, re-amar.
remar.
afogo-me nas lágrimas que já não produzo,
embora haja vontade.
ela tem binóculos agradabiliss, eu tenho a angustia estampada na cara.
a dor do que é, do que poderia ter sido, não foi

e é tudo.

Il ya toujours quelque chose d'absent qui me tourmente

Há algo que ainda machuca, que dói.
Uma ânsia de vômito qualquer.
Um embrulhar de estômago no canto do íntimo.
Dor, amargura, angustia profunda. dilacerante qualquer.
os vermes dançam no meu ventre.
ventre este que não nasce um novo coração.
há outro ventre com um coração por dentro.
quisera eu que não. quisera eu que inicio de maio não doesse.
os caminhos não trilhados (Frost sabe do que falo)
profusão confusa. angustia dolorida.
meu ventre podre, que não poderia dar fruto
pois coração não nasce aonde há vermes
há sempre alguma coisa ausente que atormenta.
namoradinha de Rodin me disse uma vez.
e quem há de entender?
nem eu mesma me entendo, e nem é para entender
há só de engulir, engulir, engulir,
na esperança de que se digira algo de bom,
a minha própria merda do que não sou
o que não fui é que me dói
os telefonemas me machucam
o apaguei da minha lista, não atendo mais certos números
há uma vontade de saber do futuro
espero que eu consiga
que consiga conviver com o fruto que não é meu
que não me doa o existir dos outros
não-poema sem poesia
não há doçura nessa amargura que sinto
o frio na barriga que me acompanha em cada pensamento
o telefone que toca, e a pessoa errada do outro lado da linha
que o início de maio não me doa.
não mais do que ainda me dói agora.

férias.

do por enquanto.

"Cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo o que há de vir."
"Creia no futuro"
é o que já dizia Jorge Mautner.
estou crendo, estou sendo.
dor, mágoa, rancor.
tudo acumulado em medidas desmedidas.

déjà vu

A esperança pesa.

só a infância presente existe

"Ouvir rock, ver a chuva, beijar uns lábios, deitar com uma ou outra carne na cama e sentir o sexo. Depois de horas e horas de pensamento e desistência e ridículo e paradoxos e uma vontade louca de viver! Mas o sono me puxando poderosamente. Então eu ouço Rock e olho a chuva e penso no sexo. Depois tudo se mistura porque na verdade tudo existe misturado: o sexo, o Rock, a chuva e então eu durmo. Eu durmo e durmo e sonho em ritmo de rock e vejo a chuva no sonho e o sexo se sobressaindo em todos os lugares. Sonhos agitados nos quais existe algo que eu esqueci de citar. Algo que balança que nem uma bandeirinha vermelha em meio à chuva, ao sexo e ao Rock. É a infância. Será que o Rock, a chuva e o sexo não passam de infância e que só a infância presente existia? Só a infância presente existe! Lembre-se disto: só a infância presente existe!"

(Jorge Mautner)
tenho saudade
sob aparência de medo e remorso.

carta a Helena

Culparia o álcool, a bohemia, a cidade grande, as drogas, as farras, os livros, os escritos, os Caios Abreus, os discos. Culparia o de mais fácil e acessível para tirar a culpa que é inteiramente nossa e de nossas escolhas. Já não somos adolescentes, embora às vezes imaturas. Já não somos inocentes, fomos machucadas pela vida e pelas responsabilidades. Ainda assim temos que manter o brilho nos olhos. Sou o que você me fez ser. Você me cicatrizou e marcou, a cicatriz-tatuagem maior e mais profunda que tenho. Penso em você sempre, todos os dias com tanto amor que até me dói vezenquando. A vida nos levou para caminhos tão distintos. Te queria aqui comigo, conversando sobre nada, sobre tudo, sobre o que somos e bebendo um vinho barato, tão barato quanto o que ainda somos. Você sabe exatamente como eu agiria. Como seria capaz de numa loucura qualquer juntar as minhas coisas e partir, por mais que doa, apenas pela vontade e curiosidade de saber o que tem por aí. É o momento das experimentações. Saber, provar, conhecer, aproveitar.

(apenas uma página para um dia - cada medida desmedida)

e me veio à cabeça

Mantenho na força fina do que fabrico
aquilo que já não leio.

matheus disse:

Já ouviu a lenda do prometeu acorrentado?
Os humanos no principio tinham 4 braços e 4 pernas e eram hemafroditas e gostavam muito de Prometeu, um deus do Olimpo que era mais querido que Zeus. Um dia, querendo retribuir o carinho, decidiu dar aos humanos o fogo, de presente, Zeus com ciumes e bem bravo de deixar os humanos com uma coisa tão poderosa e preciosa, acorrentou prometeu num penhasco onde todo dia vinha uma águia e devorava seu fígado que regenerava pra ser comido no dia seguinte, eternamente. Os humanos ele castigou de outro modo: separou os seres perfeitos que eram em dois, homem e mulher, e os condenou a procurar sua outra metade pra se sentir perfeito

Amor e essas coisas todas é uma condenação.

do caos

organizo meus papéis,
minhas gavetas,
meu quarto,
como quem tenta organizar
a confusão de si mesmo.

navegar é preciso

"carrego coisas pesadas e quase não mais flutuo. há tempos, navego sem encontrar portos pelo caminho. lugares onde se possa parar. descarregar as cargas amontoadas. atirar o que é sobra ao chão do cais. navego enquanto posso, sem conseguir me livrar da bagagem. das pedras dentro das malas. sabendo que a mudança foi com a embarcação e não com o mar. navego, sabendo que afundar é questão de tempo."

(Eduardo Baszczyn)

como diriam: mira na fé e rema.

não é fácil assim, mas...

"Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo - deixa o vento soprar, let it be, fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco"

(Caio F. Abreu)
E agora, José?

do agora.

"Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor."

(Drummond)